UM DEDO DE PROSA
Naquele domingo Antonhadão voltou para casa muito chateado. Chateado e com dúvidas na cabeça. Primeiro, porque prejudicou os parceiro na sinuca: não conseguiu encaçapar uma bola. Depois, sabe-se lá com quantos vinhos na cabeça, deu vexame na bocha. E lá pelas tantas, a venda, de portas fechadas, só com a mesa de baralho, do lado de dentro do balcão, foi chamado de amigo da onça. Na base da brincadeira. Mas foi.
Encabulou-se com tudo aquilo. Em casa, sob água fria do banho de balde, pensou:
Zé Dutra podia me chamar de tudo, menos de amigo da onça. Amigo da onça tem a ver com traição. Podia me chamar de amigo do cão, amigo das éguas barranqueiras...mas amigo da onça não? Chegou a pensar em voz alta sobre o assunto.
A patroa, professorinha da escola da colônia, ajudou desanuviar a cabeça do marido com uma estorinha sobre a conversa de dois caçadores:
O que você faria se uma onça aparecesse aqui?, perguntou um deles.
Eu dava um tiro nela!, disse o colega.
Mas se você não tivesse espingarda?
Bom, aí eu enfrentava a fera com o facão.
Tá. Mas se você não tivesse o facão naquela hora?
Bom, aí eu pegava um pedaço de pau. Ou subia na árvore.
Se não tivesse árvore?
Saia correndo, pronto.
E se ficasse muito assustado, travado das pernas, mijando de medo?
Calma aí, seu filho da pê! Afinal você é meu amigo ou amigo da onça?
Assim, dona Genoveva amenizou mostrando que podia ser uma brincadeira. Mesmo assim Antonhadão não se deu por satisfeito e prometeu tirar tudo a limpo no dia seguinte.
Pelo sim ou pelo não, ele vai ver o próprio onço, não o amigo da onça. Mas logo pegou no sono. O dia seguinte era uma segunda-feira, sabe...
H. Ramos Bezerra
A prosa de hoje foi uma homenagem ao cartunista Péricles, que tinha página memorável na revista O Cruzeiro. O personagem o Amigo da Onça foi inspirado no causo dos dois caçadores, mas o mundo está cheio de amigos da onça.





