‘Jogador bom mesmo
na minha querência é
aquele que joga
descalço, e não
perde uma
dividida’



  Tal­vez vo­cê dis­cor­de, ca­ro cum­pa­dre, mas pra mim é de cau­sar mui­ta es­tra­nhe­za o que acon­te­ce no mun­do do fu­te­bol ho­je em dia. É tu­do na ba­se de mui­to di­nhei­ro. As chu­tei­ras são fei­tas na me­di­da cer­ta dos pés dos jo­ga­do­res. As ca­mi­se­tas não ab­sor­vem ­suor, são de te­ci­do es­pe­cial... Che­ga a pa­re­cer fres­cu­ra. E quan­do um atle­ta vai de um ti­me pa­ra ou­tro? ­Deus do céu. Dá pa­ra com­prar uma imen­si­dão de ter­ra com o tan­to que va­le o tal do Ka­ká. Até o meu glo­rio­so Lon­dri­na Es­por­te Clu­be, que não an­da bem das per­nas, ne­go­ciou um jo­ga­dor faz pou­co tem­po pe­lo pre­ço de ­umas ­três co­lhei­ta­dei­ras das ­boas. É de as­sus­tar.
  Na ro­ça, a tur­ma tá co­me­çan­do a co­piar as mo­das dos ri­cos gra­ma­dos na ho­ra de en­trar em cam­po pa­ra dis­pu­tar uma pe­la­da. Vá­rios já cal­çam os pés. Mas jo­ga­dor bom mes­mo na mi­nha que­rên­cia é aque­le que jo­ga des­cal­ço, e não per­de uma di­vi­di­da. To­ni­cão é des­ses. Be­que dos ­mais va­len­tes, da­que­les que só chu­tam de de­dão.
  Ca­da vez que o ve­jo des­fi­lan­do sua ha­bi­li­do­sa gros­se­ria nos gra­ma­dos de nos­sas vár­zeas, não sei o por quê, mas me lem­bro da mú­si­ca com­pos­ta por ­Raul Tor­res e can­ta­da pe­lo Ro­lan­do Bol­drin, o ‘‘Fu­te­bol da ­Bicha-rada’’: ‘‘Lá no ar­raiá das co­ru­ja for­ma­ro ­dois cum­bi­na­do / O ti­me do que­bra-de­do, e o ti­me do pé-ra­pa­do.’’ Vo­cê tá lem­bra­do des­sa mo­da?
  ­Pois bem, o fa­to é que se for­mou um fol­clo­re ta­ma­nho so­bre o fu­te­bol do To­ni­cão que não fal­tam his­tó­rias so­bre o ho­mem. Di­zem que se ele atuas­se na za­ga do San­tos, o Ro­nal­do não ti­nha nem che­ga­do per­to do gol na­que­le pri­mei­ro jo­go da se­mi­fi­nal do Cam­peo­na­to Pau­lis­ta. ‘‘Che­ga­va jun­to de­le e fun­ga­va no gan­go­te já na pri­mei­ra di­vi­di­da. Que­ria ver se me­ter a ­besta’’, diz o nos­so be­que, no au­ge de ­seus 50 ­anos, to­do pom­po­so quan­do fa­lam so­bre o ‘‘­fenômeno’’ lá na ven­da do Di­to.
  Po­rém, a len­da ­mais fa­mo­sa do nos­so ‘‘Ro­que Ju­nior ­caipira’’ é de uns 20 ­anos ­atrás. Era a fi­nal de um cam­peo­na­to ru­ral do Nor­te do Pa­ra­ná: Sí­tio Sal­to Gran­de X Fa­zen­da da On­ça. O ti­me do sí­tio, no ­qual atua­va To­ni­cão, usa­va o tra­di­cio­nal uni­for­me ‘‘sem ­camisa’’ e era for­ma­do, na maio­ria, por gen­te que ca­pi­na­va ro­ça de ca­fé. O pes­soal da fa­zen­da ti­nha uni­for­me – re­men­da­do, é ver­da­de, mas ti­nha. Ca­mi­se­tas bran­cas, cal­ções ­azuis. E só. Na­que­le tem­po, não exis­tia ­meião.
  A pe­le­ja foi dis­pu­ta­da, com o ti­me da fa­zen­da sain­do na fren­te: O pri­mei­ro tem­po ter­mi­nou 1 a 0. Po­rém, no se­gun­do tem­po o ti­me do sí­tio es­ta­va atuan­do bem me­lhor. O em­pa­te era ques­tão de tem­po. A bo­la já ha­via ba­ti­do na tra­ve ­duas ve­zes. No en­tan­to... Aos 20 mi­nu­tos da eta­pa com­ple­men­tar, To­ni­cão foi re­ba­ter, de bi­co é cla­ro, uma bo­la que ron­da­va sua ­área. O pro­ble­ma, é que a ­unha de­le, apa­ra­da a ca­da ­dois ­anos, fin­cou na pe­lo­ta, fu­ran­do a da­na­da. Fim de jo­go. O ti­me do sí­tio fi­cou com o vi­ce-cam­peo­na­to. E o To­ni­cão aguen­ta a go­za­ção
até ho­je.

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