UM DEDO DE PROSA
Apaixonada, porém tímida; de família cheia dos recatos, Jacinta sabia o quanto seria difícil aproximar-se de Olívio, o único solteiro dos Zaggo. Jovem, mas de hábitos tão antigos, como a própria Jacinta costumava definir o rapagão.
Ele prefere jogar bocha, com os tios, esse bando de italianos narigudos, a participar da alegria de um campo de futebol com jovens de sua idade. Desse jeito, quando conseguirei me aproximar dele?
Até que passou a lamentar e cobrar de si própria: Meu Sangenaro! Como fui me apaixonar por um xucro que, além de tudo não sai da barra da saia da mãe. Mas é tão bonito.
A mãe corrige: Você também não faz o certo. De começo, você pede para o santo errado; Sangenaro cuida de outro departamento. O santo casamenteiro aqui no Brasil é Santo Antônio, Santo Antônio de Pádua. E, depois, não vejo nada de errado ficar perto da mãe. Os teus irmãos foram criados assim e são gente correta.
Na verdade, o problema do Olívio não era apenas a timidez. A família era orgulhosa. Caipiras, porém orgulhosos, é assim que os Zaggo eram. E faziam questão de exibir esse orgulho.
Mas bem que ele tinha olhares de sobra para aquela italianinha de olhos azuis e bochechas bem rosadas. Só não demonstrava, por sugestão da família.
A porteira
Comum em romances sertanejo, também no caminho desses jovens tinha uma porteira. E era lá que Jacinta se encontrava com as colegas, aos sábados, para combinar na casa de quem iam estudar. Estudar? Coincidentemente, também passavam por aí os Zaggo, montando lindos cavalos e sempre soberbos, nariz empinado como quem não dependesse de ninguém na redondeza.
Olívio, naquele dia montava uma besta, a Ruana. Garbosa. Tinha prata na cela texana, peitoral de argolas brilhantes.
Todo metido. Bem ao estilo, nóis trupica mais num breca , a burra de Olívio se espanta com o vôo de uma codorninha de nada que saía do capinzal. E não é que dispara?! O primeiro a voar foi o chapéu de feltro e abas largas de Olívio.
A esta altura o orgulho já era! Muito apavorado o rapaz gritou: Cerque a mula, Jacinta! Cerca a mula desgraçada.
Como não deu tempo de puxar a vírgula, Jacinta preferiu achar que ele estava xingando a mula, porque assim lhe convinha (aos seus ouvidos, frase ficaria assim: Cerque a desgraçada da mula!).
Jacinta, desta vez, soube disfarçar para tirar proveito da situação. Ao invés de consolar o rapaz e detonar seu orgulho Jacinta saiu com essa: Nossa! tive que me plantar na frente da mula! Com esse galope veloz, achei que não queria nem me olhar. Que mula sacudida! Deixa perguntar: toda vez que você manda, ela obedece e corre tanto assim? Parabéns!
Estonteado, e sem voz, Olívio, emitiu um éée! pois ééé! Quase inaudível.
Uma coisa ninguém conseguiu esconder: as calças molhadas e um cheiro de urina, mais forte que o cheiro da mula.





