UM DEDO DE PROSA
Tio Chichico - é assim que todos o tratam - é um veterano homem do campo há muito fora da lida, embora nunca tenha perdido o gosto de ver um boi de perto. Criado numa fazenda de gado, ele adora ir na Exposição Agropecuária de Londrina e seu passatempo preferido é ficar alisando o lombo e a cabeça dos bovinos ali expostos, fica horas assim, indo de um pavilhão a outro cada vez mais encantado com o que vê - bois enormes, reluzentes, muito diferentes dos ''tucuras'' com que lidava antigamente, e cujo porte e trato deixam Tio Chichico boquiaberto,
''Vê se no meu tempo a gente dava banho em boi, olha só, nem a gente se lavava assim antigamente!'', comparou ele, ao ver os bois sendo lavados com esmero pelos seus tratadores no lavadouro da Exposição. Aliás, se tem alguém com quem Tio Chichico gosta de conversar é com os peões que cuidam do gado nos pavilhões.
Este ano, apaixonado que ficou por um enorme touro Nelore de quase 1.250 quilos, Tio Chichico fez amizade com Ricardo, o peão responsável pela guarda do valioso animal que já foi segundo colocado no prêmio ''Grande Campeão'' nas exposições de Londrina e Uberaba, feitos que não satisfazem o exigente tratador cujo sonho ''é ver uma animal que a gente trabalha ser premiado campeão em Uberaba, que é a principal do Brasil quando se fala de nelore.''
Curioso, Tio Chichico ficou sabendo que, como ele, Ricardo também nasceu e cresceu na roça onde, à sua semelhança, também ''fazia de tudo''. Especula, enquanto acariciava a testa do touro, ouviu que o peão continua fazendo de tudo, ou seja, além de motorista da condução que transporta o gado para a feira, Ricardo dá banho, trata e ainda apresenta os animais na pista e nos leilões. Quando algum lote é vendido, também é ele que faz o transporte até a fazenda do comprador.
Minúsculo perto do touro nelore, Tio Chichico, que nunca lidou com esta raça durante sua vida no campo, quis saber se o bicho era ''bardoso'', se tinha alguma manha. Ricardo respondeu que ''o gado nelore, depois que domamos ele, pega amor pela gente, não pode é judiar, se judiar pega raiva e não vai nem à paulada; tem que cabrestear desde pequeno, daí você faz o que quer, ele vai e para onde a gente quer.''
Mas o velho boiadeiro queria saber mais e ficou sabendo que os peões perdem muitas noites de sono pra acompanhar o gado que, entre outros cuidados, até de madrugada é levado para um bom e refrescante banho. Aliás, sobre este assunto, Ricardo contou pra Tio Chichico que ''o ideal era ter mais um lavadouro na Exposição, mais perto da pista central, o atual é muito longe, tem que andar com o gado pesado no asfalto e isso acaba com o aprumo do animal.''
''Aprumo?'', indagou Tio Chichico. ''É, a gente tem que trabalhar o aprumo do animal, casquear bem, corrigir o casco, se não o animal sente e anda todo torto'', ensinou Ricardo, enquanto seu interlocutor, indo pra outro pavilhão, pergunta quem é o melhor amigo do peão. Ricardo responde sem pestanejar: ''O melhor amigo do peão é Deus e o gado, sem esses dois o peão não é nada.''
Apolo Theodoro





