UM DEDO DE PROSA
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sexta-feira, 20 de março de 2009
Apolo Theodoro 
Seu Benedito, católico fervoroso, costumava dizer, quando a quaresma chegava, que pior do que pecar é abusar. Pecar, dizia o velho carola, todo mundo peca, agora, abusar, desafiar as leis de Deus e da Igreja, desdenhar o conselho dos mais velhos, afrontando costumes, comportamentos e mitos dos antepassados, lembrava o velho carola, é imperdoável e o castigo costuma acontecer ainda aqui na terra só pra deixar de ser besta, porque só um besta afronta Deus!
Já a mineira Maria Lídia, quando via algum abuso durante a Semana Santa, gostava de lembrar um fato estranho acontecido lá em Santa Rita do Passa Quatro, onde nasceu, caso que nunca esqueceu, e que aconteceu com um casal, ele afilhado do seu pai. Desaconselhado pelo padrinho - É pecado, Deus castiga a não comer carne vermelha na noite da Paixão, o afilhado, metido a trovador, respondeu com trova e troça:
Isso é coisa de gente da roça, padrinho, qual é, vamos comer picanha e filé e, podes crer, nada vai nos acontecer, Deus não tem tempo a perder, tem mais o que fazer e não vai nos castigar bem na hora de comer! Relaxa padrinho, isso é coisa do passado, vamos comer um assado, você é meu convidado, garanto que não é pecado!
Boa ou má foi a última trova do trovador papudo: ele a mulher amanheceram sem voz, completamente mudos. A gente não sabe se foi castigo de Deus, mas que foi muita coincidência foi, dizia Maria Lídia. Outra coisa: se você não sabia, ir ao cinema e chupar sorvete também não podia no dia da Paixão. Agora, veja só que costume esquisito: como era pecado bater nas crianças ou dar um pito, os pais anotavam as artes feitas durante a semana e, no Sábado da Aleluia, o arteiro levava uma surra.
Mas a quaresma tinha outras assombrações. Mineiro de Itajubá, Bento e uns amigos voltavam da Procissão do Senhor Morto para o sítio onde moravam em Assai quando, na noite enluarada, viram um bicho na estrada. O animal tinha a traseira levantada e a cabeça baixa. Acostumado a ver o bicho em Minas Gerais, Bento não disse aos demais: É um lobisomem!
Com a cara cheia de cachaça, eles foram de encontro ao bicho fazendo arruaça, mas como lobisomem nunca encara a gente de frente, ele subiu num barranco, subimos atrás pra ver se pegava, não teve condição, o bicho é rápido feito o cão, pulou de novo pra estrada e se mandou fazendo um barulhão tloc, tloc, tloc como um cavalo ferrado andando no asfalto, é a orelha dele que bate de tão grande que é.
Como Bento e seus amigos estavam mais pra lá do que pra cá, bêbados feito gambá, fica a seu critério acreditar. Mas sábado que vem tem mais histórias, coisas de assombrar, leia a chamada aí abaixo que é de arrepiar.
Próxima semana: moça faz baile de 15 anos no dia da Paixão e acaba nos braços do cão


