UM DEDO DE PROSA
Se o descrente do Mario e sua irmã crente comiam carne até na Sexta-Feira Santa, ignorando ainda todas as proibições e rituais observados pela maioria católica na quaresma, é bom lembrar que eles e os iguais a eles eram minoria uma gota dágua no oceano de superstição que sempre banhou a mente dos brasileiros, fruto da nossa diversidade étnica, cultural e religiosa.
Não era permitido fazer quase nada nos lares católicos durante a Semana Santa, especialmente na Sexta-Feira. Tudo era feito na véspera porque, no dia da Paixão, não se varria a casa nem limpava o chão; passar, lavar ou costurar roupa também não; almoço, nem arroz com feijão, mesmo porque não se rachava lenha pro fogão.
Sair à noite, então, quem era homem, e o medo de encontrar o lobisomem! Xingar e brigar durante a Semana Santa, jamais, além de ser pecado maltratar crianças e animais. E, veja só, quem diria, não penteava o cabelo no Dia as mulheres de nome
Maria, sabia?
Na zona rural no dia em questão, não se ia pra roça nem ao curral, além de não socar arroz no pilão. De manhã, era um cafezinho fraco e mais nada; comer, só ao escurecer, mas sem carne na panela, apenas peixe e outras misturas iam pra goela. Instrumentos musicais e armas de fogo ficavam pendurados na parede já que ninguém tocava neles, só os mais abusados.
Também não podia cantar, ligar rádio ou TV e conversar, só em voz baixa. Castigos severos recebidos pelos que ousaram transgredir eram sempre lembrados pelos mais velhos. Aurora, por exemplo, que viveu na roça desde menina, sempre contava um caso acontecido lá em Pinhalão, no Norte Pioneiro, onde nasceu. O fato se deu com um moço que, desdenhando o aviso dos mais velhos Hoje não é dia disso, Simino, guarda essa arma! cismou de caçar passarinho bem na Sexta-Feira Santa.
O castigo de Deus, mais do que à galope, veio à bala que, depois do tiro dado pelo atrevido rapaz, bateu sabe-se lá onde, ricocheteou, voltou e atingiu em cheio a mão direita do atirador que, segundo Aurora, ficou aleijada. Depois dessa, quem quiser saber mais alguma coisa da quaresma de antigamente, daquele tempo de lobisomem é... Ah, você não acredita, acha que é papo furado, cuidado, é bom ficar ligado, pois o bicho pode voltar e dizem que é abusado! Pra ficar mais inteirado, é só conferir o dedo de prosa no próximo sábado? Obrigado.
Apolo Theodoro
Na semana que vem: A surra dos levados na Aleluia e o mineiro que encarou o lobisomem e o bicho correu.





