UM DEDO DE PROSA
Não foi nada divertido ver o Antonhadão arrastar aquela vaca de barriga estufada para fora do rio.
Rio? Que rio? Aquilo um dia já foi um rio, hoje não passa de um córrego raso, muito raso. A areia, que veio com a enxurrada invadiu tudo.
Perdeu uma vaca prenha de cinco meses. Que pena! que judiação!
Foi tudo por causa de puro relaxo.
Primeiro que ninguém deu conta disso na hora juntar o gado. Muito cedo, o caboclo vai para o curral ainda meio com sono, não faz a contagem certa.
Sabe Deus quantos dias a pobre vaca se debateu e esperneou para sair do atoleiro. Sabe-se lá quantas vacas não se perde por esses córregos afora por causa da margem barrenta e escorregadia.
Puro relaxo. Judiação mesmo!
Isto que aconteceu no sítio do Antonhadão é motivado por erros antigos e erros atuais. Primeiro, sitiante ou fazendeiro que se preza, não deixa o gado beber água no rio. Tem que ter outro jeito para o animal não caminhar tanto. E, depois, tem que haver uma cerca, uma mata ciliar, enfim algo que limite o local ideal para o gado alcançar a água. Mesmo que utilizando o rio, tem que haver algumas adequações, justamente para evitar escorregões em pequenos barrancos.
Agora quanto ao atoleiro, só há atoleiro porque a água do leito do rio é pouca, está baixa, rasa - apesar de tanta chuva.
A vaca do Antonhadão ficou presa na areia com as duas patas; depois forçou o traseiro e aí não teve mais força.
É de se imaginar: Quantos dias não deve ter ficado lá?
Dizem que foi o tempo suficiente para os urubus atacarem. Só ao ver tantos urubus rondando o local é que alguém se deu conta que poderia ter um animal morto por aí. Viram, então, uma vaca acabando de morrer à mingua, com um bezerrinho na barriga.
Falta de profissionalismo. Gente que não tem muito tato para o manejo. Ou o peão é distraído - o que é um perigo na lida do gado, mesmo em plantéis leiteiros cujo gado é manso. Agora veja o jeito errado de administrar: gado leiteiro (que deveria ficar o dia todo por aí perto da sede, perto da ordenha) acaba tendo que ir até o córrego para beber água. Desconforto para o animal, risco de picada de cobra, risco de se contaminar e ainda ficar sujeito a escorregões e afundar, como foi o caso.
Às vezes fico pensando, se essa gente merece o que tem em mãos.
Até sábado





