UM DEDO DE PROSA
O povo, com sua proverbial sabedoria, é useiro e vezeiro em criar ditados e expressões que, com o tempo, acabam incorporados à nossa linguagem cotidiana tornando-a mais bem humorada e sedutora. E é comum, entre outras apropriações, o povo emprestar o nome de algum produto da terra e usá-lo em sentido figurado para definir comportamentos ou situações como, por exemplo, chamar de banana a pessoa que é frouxa, sem coragem para nada ou para tudo.
Por falar nisso, quem tinha esses ditos sempre na ponta da língua era o banana do Dito que, aliás, ganhou essa alcunha justamente de Rosa, sua paixão doentia, a quem ele chamava meu ''Chuchuzinho'', embora a moça não desse pelotas para o pé-de-cana que ela mandou passear já no primeiro bafo.
E, se a rejeição amorosa o deixou, como dizia, ''de ovo virado'', mais mal humorado ficou quando o patrão, depois de dar-lhe uma espinafrada daquela, o mandou às favas depois de chegar bêbado no trabalho pela terceira vez. Desempregado, duro feito mandioca aguada, Dito passou a pedir dinheiro para o irmão que, em troca da grana, o obrigava a praticar atos ilícitos para o deputado corrupto que assessorava.
Enquanto isso, o amor de Dito por Rosa só aumentava. Certo dia, no boteco, quando ela passava na rua ele suspirou: ''Olhe o meu chuchuzinho, a minha pequena não é uma uva?''. E confessou agoniado: ''Estou embananado, pisei no tomate com a Rosa...Só de raiva vou enfiar o pé na jaca!''
E enfiou, bebeu como nunca. Aí, com a moringa cheia de álcool e frustração, chorou feito criança: ''Que burrada que eu fiz! Ah, Rosa, me perdoe, nunca mais vou fazer aquilo, nunca mais! E, por favor, não fale que eu sou um banana, porque eu não sou um banana, eu não sou um banana...'', e, choramingando, repetiu esta frase até dormir, tão bêbado que estava.
O que ele fez? Certa noite, após levar outro fora de Rosa, bêbado feito um gambá, urinou no tronco de uma árvore perto da igreja da moça. E, na maior safadeza, ainda chacoalhou o dito cujo pra quem quisesse ver. Um homem, que passava com a mulher, viu, não gostou e encheu o Dito de porrada. Só não apanhou mais porque correu, picou a mula rua abaixo ainda tendo que ouvir o coro de ''banana, banana, banana!'', que Rosa comandava com gosto e satisfação.
Além de banana Dito passou a ser também ''um goiaba! Conversar com o cara, meu, é batata: só fala na Rosa e depois começa a chorar e a repetir que não é um banana - cara chato, assim vai se embananar mais ainda!'', comentou um amigo ao vê-lo se aproximar. E Dito realmente chorou as pitangas. Mas, para surpresa geral, não falou de Rosa, disse que ''agora a bananosa é outra, agora sim estou empepinado de vez!''
E os amigos ficaram sabendo que, além de banana e goiaba, Dito virou laranja. O deputado corrupto, para o qual o irmão trabalhava, ''usou meu nome numa transação aí, a coisa estourou, ele caiu fora e deixou o abacaxi pra eu descascar. ''Prometendo não entregar a rapadura - ''Vou é entregar os dois pra polícia!'' - foi apoiado pelos amigos que o incentivaram numa linguagem peculiar: ''Isso mesmo, Dito, jogue o pepino pra cima deles! Essas batatas podres tão por cima da carne seca, por cima da goiabada, com dinheiro pra chuchu - ferro neles, ou vai ficar com esta batata quente na mão?''
A história acaba aqui, mesmo porque a justiça está até hoje cozinhando o galo e ninguém ainda pagou o pato. Antes do ponto final, porém, quem não gostou pode mandar o autor plantar batatas que ele não vai, ou melhor, só vai se for batata doce porque azedo basta o Dito, ou melhor, bastava porque o banana nunca mais vai ler ou ouvir abobrinhas como esta: ele morreu. De cirrose, claro. Ou será de ''cirRosa?'' (Apolo Theodoro)





