Dias atrás, contei aqui histórias da lógica do campo lá dos anos 60. Uns 50 anos atrás. A lógica do campo é (era) a lógica da honestidade, da ajuda entre sitiantes e fazendeiros.
Pergunto ao leitor: Qual boi vale mais: o castrado, para engorda, ou o ‘‘inteiro’’, que está cobrindo as vacas? A resposta é clara: tem que valer mais o reprodutor. O boi ‘‘capão’’, deve ser vendido pelo peso, afinal ele vai para o frigorífico, é gado de corte. Claro.
Só que na lógica do produtor Tiherculano, pequeno fazendeiro de lida, com certeza, não. A lógica dele é outra. Quer saber?
Tiherculano tinha que substituir um touro da raça Caracu, um gigante. Sem o elegante cupim do Nelore, mas um gigante. Jumbo havia ‘‘repassado’’ a maioria das vacas de leite; cruzara com vacas Gir e o pasto já ia virar uma promiscuidade porque dezenas de novilhas, filha deste touro, entravam em cio.
O boi, aquele monstro admirado por todos que passavam pela rodovia que cortava a Fazenda Santa Luzia, estava à venda.
Você já viu o dono de um animal implicar com destino dele depois da venda? Já viu fixar preços de acordo com a utilidade do objeto, seja boi ou um carro?
Mas o Tiherculano implicava. Diziam que ele era sistemático. E antes de qualquer oferta, era ele quem perguntava primeiro.
—- Você qué o animar pra criar ou pra churrasco? Se é pra corte o preço é outro.
Gente, acreditem! Se o comprador dissesse que o Jumbo ia para o corte, então ia ter que pagar mais caro. Pode?
O sobrinho Tony era moleque e não se conformava. Chegou a resmungar: ‘‘o tio quer continuar mandando no boi até quando não é mais dele’’.
Agora parem para pensar. É aí que entra a lógica do homem do campo (antigo). O recado do Tiherculano é claro: o desejo dele era que um animal bom de raça, melhorador do rebanho, continuasse reproduzindo, só não na vacada da Fazenda Santa Luzia. Queria estimular o melhoramento genético na redondeza. Naquele tempo não havia inseminação, nem cruzamento industrial. Era um pecado vender um boi (digo, um reprodutor) daqueles para um açougueiro.
Será que não é por atitudes como essas que o Brasil tem essa fartura de pecuária?

H. Ramos Bezerra
A prosa de hoje foi inspirada na mais absoluta verdade acontecida, ainda que você considere meio insólita.
Até sábado!

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