O meu compadre Antonhadão não conseguia entender as sutilezas que estão escondidas na tal fusão de empresas. Mas, com a (saudável) cisma de caboclo, bicho desconfiado por natureza, chegava a arriscar algum palpite, principalmente depois de algumas doses de rabo-de-galo. É isso mesmo, ele ficava prosa, conversador, depois de virar um conhaque com cachaça, ou cachaça com fernete.
- Caramba! Se duas partes estão bem, se o mercado está bom e tem pra todo mundo, por que não tocar cada um pra si e Deus pra todos?
E por que também na maioria dessas fusões o nome que permanece é o do mais forte?
Meses antes, alguém da cooperativa deixara escapar a seguinte frase: Isso aqui pra ficar fácil de negociar os adubos e a colheita, precisava fundir todos esses sitiozinhos pequenos num só lote. Num contrato só vai dar menos trabalho para o entreposto e para a empresa.
Antonhadão, dono de 11 alqueires, não teve que ‘‘fundir’’ a cuca para chegar à conclusão. Essa idéia de fusão, se não der confusão pelo menos vai dar num baita latifúndio.
E, com essa cisma toda, o sitiante foi irônico naquela tarde de sábado, na venda do Joka, no quilômetro 15.
– Quer saber de uma coisa, Joka: você também vai acabar fazendo uma dessa fusão entre a sua vendinha aqui e um empório lá na cidade e vai cair fora daqui, meu.
Do lado de dentro do balcão, Joka, com o radinho portátil grudado na orelha, fez de conta que não escutou a profecia do freguês. Do jeito que vão as coisas, daqui a alguns anos o boteco dele vai ficar sozinho, no meio do canavial e coberto de poeira. Isso aqui vai virar um imenso canavial.
Aqui pra nós isso é concentração da posse da terra. Lá na cidade eles podem continuar chamando de fusão. É mais suave.
A prosa de hoje foi inspirada na fusão de bancos, uma forma de aumentar um estabelecimento e abocanhar o outro.
H. Ramos Bezerra - caboclo historiadô e metido a explicar a coisa alheia. Mas que a ‘‘fusão’’ está avançando no campo, está.

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