Aos oito anos, ficava horas à beira de uma rodovia, vendo o movimento. Eram caminhões transportando toras, por exemplo, além de ônibus sempre lotados. Um dia, não resistiu à vontade de atirar uma pedra. O alvo foi um jeep Willys Overland. O motorista voltou de ré enquanto o maroto sumia entre as plantações. Aliás, ninguém pega um moleque da zona rural, de canelinhas finas, calça curta, correndo campo afora.

E os palavrões ecoavam na redondeza:

-- Moleque filho da puta! Eu te pego, seu caipirinha de merda!
Perto do córrego, pronto para se embrenhar no brejo de um taboal, o coração de menino parecia sair pela boca. Medo do homem do jeep Willys (que tinha placas branca) e medo de contar para o pai, que era enérgico.

--- Tanta coisa prá acertá, você foi me acerta logo um carro de chapa branca!
Não sabe que chapa branca é do governo e essa gente é perigosa?! Se ele vem aqui eu ainda escoro na cartucheira, mas quando você tá na escola, quem te defende?

E continua, o pai: Eles podem tudo! (Detalhe: nos anos 60 o governo havia mandado erradicar laranja, limão, mexirica, para beneficiar outros interesses. A desculpa era acabar com o tal cancro cítrico, que nunca existiu. Estava armada a encrenca).

De qualquer jeito, o pai não gostava de governos. Coisa de imigrante italiano, meio anarquista.

O menino cresce com trauma de tudo que é oficial, branco, e que venha do setor público: carros de placas brancas, colarinho branco e por aí vai.

Mas nada neste mundo é por acaso.

Os crimes do colarinho branco estão presentes na vida dos homens públicos. E ninguém os enfrenta.

Hoje, aos 60 anos, aquele guri - de apenas 8 - ouviu do pai, agricultor e comerciante, uma verdade cada vez mais atual, a de que Governos, políticos, órgãos públicos em geral são ameaças, não são para defender o cidadão. Eles tomam o que é seu...eles abocanham o seu pão...

H. Ramos Bezerra

A prosa de hoje foi inspirada em história real, de corrupção, de mentiras, tudo que está escancarado ''nestepais''.

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