Dias atrás, contei aqui as farras que a turma fazia com as melancias do japonês. A prosa daquele sábado inspirou outra história, a do Duílio, contada pelo irmão mais novo, o Tony. Ele se diverte. Não sei se ri do personagem ou da fé que eu coloco no seu conto, recheado de ingredientes pitorescos.
Duílio era sitiante curioso, inovador. Construiu uma engenhoca e fabricava rapadura pro gasto.
Tinha um sítio de boas aguadas, mas se metia a arrendar a terra dos outros.
Sobrava um canto úmido na propriedade e o Duílio resolveu plantar melancia.
‘‘Deve dar dinheiro’’ - pensou. Se não dá dinheiro, como o Chico japonês pode trocar o caminhão a cada modelo novo?
As melancias vão crescendo e ele, caprichoso como sempre, cuidava bem. Colocou até caveira de boi ‘‘para espantar olhos gordos dos vizinhos’’.
Melancia quase formada, veio a cisma: ‘‘Vão me roubar’’. E passou a fazer ‘‘passeios’’ pela lavoura. O perigo era quando o pessoal voltava dos bailes, tarde da noite.
Colocou placas ‘‘Cuidado! plantação tratada com veneno’’ e o desenho da mesma caveirinha que vinha na embalagem do Formicida Tatu, famoso na época.
Não adiantou nada. Fez uma cerca com 6 fios de arame farpado: ‘‘Não passa nem o capeta!’’. Mas o ladrão de melancias passou.
‘‘Vou dá um carreirão neles’’. Chegou o dia. Lua cheia, Duílio se posiciona perto das mais graúdas, depois de andar horas pelo melancial. Já tinha esgotado os repertórios de Pedro Bento e Zé da Estrada. Moda sertaneja com sotaque italiano, deve espantar até ladrão. Cansado, carabina e os cachorros ao lado, Duílio dorme em cima da areia.
Ladrões conscientes, gente da própria redondeza, não estraga a fruta verde. Iam apalpando as maiores que poderiam estar ‘‘no ponto’’. Nessa de escolher o fruto certo, nem a careca do Duílio foi poupada. Confundida com uma melancia, ganhou uns toc-tocs, para saber se está madura. O homem acorda assustado, dá o maior grito e o ladrão ‘‘apalpador’’ também quase morre de susto. Mas o Duílio não era de se entregar, garante Tony, e saiu no rastro. Só sei que o grito do Duílio ecoa até hoje na redondeza. Ecoa para satisfação dos parentes e amigos que sentem saudades das suas peraltices lá pelos 40 anos de idade. Aprontava cada uma!
H.Ramos Bezerra

A prosa de hoje, foi inspirada no sitiante que amou o chão. Colheu de tudo...melancia, não.

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