‘‘Urge uma política industrial para
o setor, concreta, de forma
a reduzir a dependência
externa e sua mudança
repentina de
humor’’


Após a perversa alta de preços dos fertilizantes para os custos da agricultura brasileira, chega a hora do ajuste nos defensivos agrícolas, que há um bom tempo mantém o mesmo valor no mercado internacional e em queda no Brasil face a valorização do Real. A conjuntura sócio-econômica mundial vem se modificando, o consumo mundial de alimentos vem aumentando, acompanhado pela crescente procura por biocombustíveis, situação que, consequentemente, afeta o equilíbrio entre oferta e demanda de agroquímicos e coloca em xeque o abastecimento do mercado pelos diversos tipos de insumos agrícolas.
A China, grande exportadora de defensivos genéricos a preços baixos, está em ebulição nessa área. Olhando atentamente essa questão, observa-se que o país está em pleno processo de reestruturação das indústrias de defensivos agrícolas. Fábricas são fechadas e reconstruídas em conformidade com as novas exigências ambientais. Nesse processo, determinados produtos deixaram de ser produzidos, como é o caso do metamidofós, que abriu uma lacuna no mercado internacional, preenchida no Brasil somente por duas empresas Bayer e Fersol, esta de capital 100% nacional. Este produto é o principal inseticida do país e um dos cinco fitossanitários mais usados hoje, em volume, na agricultura brasileira.
Outro ponto importante a ser analisado é a preocupação da China com o abastecimento interno. Desde março, os chineses aplicaram alíquota de exportação de 120% para os fósforos amarelo e branco, importantes matérias-primas do setor. O país também enfrenta inflação alta há dois anos e percebeu que já não é preciso vender seus produtos tão baratos para continuar competindo no mercado mundial.
A demanda por biocombustíveis também está aquecida, e tudo indica que ela só tende a aumentar com o barril do petróleo superior a US$ 115,100. Essa tendência também influencia os preços dos defensivos agrícolas. À jusante, o uso do milho pela América do Norte (USA) para biocombustível elevou o custo desse fundamental grão, arrastando os demais.
Somando esses fatores, estimamos que os defensivos devam nos próximos meses nesse 2º semestre ter uma alta de 20% acima de 10% nos preços em média reais; sendo que alguns defensivos terão aumentos bem maiores, como os produtos à base de Atrazina, Carbendazim e Glifosato. Para o próximo ano o peso do aumento geral deverá ser mais expressivo ainda. E, considerando que mais de um terço do PIB brasileiro provém do agronegócio, espera-se que o governo inicie um processo estratégico de defesa da sua indústria desse insumo. Hoje, cerca de 60% dos defensivos agrícolas são importados, quando em passado recente 80% eram fabricados aqui. O motivo é claro: falta de incentivos governamentais e de planejamento estratégico para o setor.
Traduzindo: não é vantajoso investir no Brasil para produzir fitossanitários. Enquanto uma empresa nacional sofre a incidência de impostos e taxas da ordem de 45%, sua congênere chinesa compete com imposto de 6%. A química fina permanece importadora e não investe na especialização e oferta do leque das matérias-primas, apesar de todo o avanço tecnológico de nosso país. Erros primários assim só projetam um futuro pequeno e dependente.
Urge uma política industrial para o setor, concreta, de forma a reduzir a dependência externa e sua mudança repentina de humor. Caso contrário, o filme de terror chocante que estamos assistindo com os fertilizantes terá sua versão nos defensivos agrícolas, ou agrotóxicos, ou pesticidas ou praguicidas, como queiram.

TULIO TEIXEIRA DE OLIVEIRA é engenheiro e diretor executivo da Associação Brasileira dos Defensivos Genéricos (AENDA)

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