UM DEDO DE PROSA
Quando vejo aquela árvore enorme, inclinada para o lago, a primeira coisa que me vem à mente é que ela, ao deitar-se em definitivo, faria tudo para não causar danos à vizinhança. Terna e generosa, se esforça para que seu ocaso e transposição não incomodem a ninguém, nem a minúscula formiga, tampouco à plântula que rompe o solo em busca do sol. E que seu corpo, agora horizontal, jaz e de alma liberta, continue a cumprir funções úteis ao ambiente. Afinal, decomposição dos corpos, vegetal e animal, também é um desiderato da natureza.
Mas isto não é a única mensagem que se recebe ao contemplar aquela planta portentosa e bela. A dignidade da sua postura, ainda que declinante, sugere reservar para si o direito a um leito suave. E só a mãe Água lhe ofereceria.
Aos corações solidários que rejeitam a queda, a árvore acena, graciosa, com olhar humilde. É quando, então, derrama sobre os transeuntes as plumas que se desprendem sutis e silenciosas. Saem da casca que protege o bendito fruto, movidas pela magia do vento. O fruto é a paina, desabrochada por obra do tempo e da divindade. Não é à toa que têm o branco da paz. Plumas que afagavam rostos morenos, brancos, negros. trigueiros... consciências depositadas nos travesseiros confeccionados pelas mãos da avó no Brasil caboclo dos séculos passados.
Como tudo tem seu tempo, o recheio do travesseiro de hoje não guarda a suavidade da paina. Mas não tem importância; ainda restam a sombra das folhas, a beleza ímpar das flores, lembrando orquídeas, e os bagos graúdos verdes e marrons. Além da beleza da planta, que inspirou o cancioneiro popular, e em cujo tronco muitos canivetes esculpiram corações com as iniciais do nome da amada.
A prosa de hoje foi inspirada na atitude da jovem professora, perturbada com a queda anunciada da Paineira no lago Igapó. É também de sua autoria a estrofe abaixo:
Ah! paineira querida,
Quem me dera o dão da poesia
Para homenagear teus encantos
E preencher esta alma vazia
H. Ramos Bezerra
Até sábado





