UM DEDO DE PROSA
A placa divertida que ele colocou
lá pra espantar
os ladrões:
passado veneno.
Mas ninguém
tinha medo
Sinceramente, sinto saudades das melancias que a gente roubava do Chico Saburu, o japonês do sítio vizinho.
Está nítida na minha memória a placa com os dizeres: Cuidado: passado veneno.
Bom, com esse aviso passado veneno na realidade o japonês queria dizer que o consumo daquela melancia era perigoso, na esperança de que, com o risco à saúde ninguém fosse roubar as melancias. Puro engano.
A gente roubava as melancias e o japonês roubava todo esterco que as vacas deixavam no pasto. Levava de caminhão cheio. Tinha a permissão do nosso pai.
Até que um dia descobrimos que o japonês estava levando uma riqueza, o esterco orgânico. Mas tudo bem, naquela imensidão de pasto ninguém se importava. Passamos, também nós, a recolher as merdas de vaca que eram levadas, secas, para estercar o cafezal. Lotava a carreta de um tratorzinho Ford à gasolina, que a gente chamava de azeiteiro. Não podia colocar o esterco na carroceria do Chevrolet Brasil novinho em folha.
Agora, é preciso deixar claro que, na verdade, ninguém roubava nada. A gente pegava. Parece até que havia um código de ética: Só pegava para consumir aí mesmo, na sombra de uma árvore. Ninguém levava para casa. Só umas duas ou três melancias.
E, ao contrário do que acontecia em outras colônias, a gente só fazia isso com as frutas. Ninguém roubava frango ou cabrito na época de Natal e Ano Novo. Não havia essa brincadeira porque poderia dar problema. Meu irmão orientava: vaiqui você pega uma leitoa ou uma cabra prenha! Vaiqui você pega um porquinho doente! Além disso, o que não é certo, não é certo! Certo? E isso também parecia ser um código de ética não escrito.
Agora, meu caro leitor, você sabe o porquê da saudade dos roubos de melancia? E sabe, também, por que deixava os outros roubarem da gente?
Porque hoje o roubo não é , digamos, essa brincadeira de antigamente. Hoje o roubo não é recíproco entre a gente da mesma água, quer dizer, da mesma colônia.
Hoje os caras vêm mascarados, com arma pesada, roubam o seu trator, o seu pulverizador, o televisor da sala e muitas coisas do nosso racho. E roubam o seu caminhão para carregar tudo, enquanto você é amarrado, amordaçado e torturado. E tem que pedir a Deus para não levarem a sua filha, esposa ou sua vida.
Deu para entender?
Tudo isso porque não temos governo!
Até sábado
H. Ramos Bezerra
A prosa de hoje foi inspirada no desabafo de um agricultor que teve a casa invadida, agüentou desaforo e ficou traumatizado pro resto da vida.





