UM DEDO DE PROSA
Pelo menos dois pronunciamentos, esta semana, lavaram a alma dos produtores: o ministro Stephanes, que sai em defesa do agronegócio,
e Pedro Camargo Neto. Para ele o Brasil anda focando a Rodada Dohas para não atacar as mazelas internas, como a questão sanitária, um lixo
O agronegócio brasileiro é órfão em matéria de política. Quem fala pelo setor, fala timidamente. O medo é que fala mais alto. Alguns nomes que tiveram ascensão política não souberam ou não quiseram usar seus cargos em defesa da produção. Tiveram passagem inexpressiva. A não ser que se considere, por exemplo, Pratini de Morais, como expressão. Claro que não. Roberto Rodrigues? Também não. Passou pelo Ministério sem deixar marca, ficou um tempão em cima do muro com relação a vários temas polêmicos no governo Lula. Tinha idéias, mas não tinha ação. Sua atuação foi modestíssima.
Agora, sabe quem lavou a alma dos produtores? O atual ministro, Reinhold Stephanes. Outro que resolveu reaparecer: Pedro de Camargo Neto. Vamos por partes: 1) Stephanes disse que 70% da área agricultável do território brasileiro não pode ser cultivada por algum motivo: reservas florestais, indígenas, ou legislações que impedem o plantio comercial. Stephanes ironizou o próprio governo quando disse: Muito se fala sobre o fim da Amazônia, mas tenho medo da extinção da área agricultável do Brasil.
Stephanes, que não é do ramo, arrancou aplausos. O setor está tão carente de defensores que quando alguém fala qualquer coisa, é aplaudido. Foi a segunda vez que Stephanes mostrou independência e coragem para discordar.
2) Pedro de Camargo Neto, nas páginas amarelas da revista Veja derrubou a máscara de um fantasma do comércio exterior, essa bobagem chamada Rodada Doha. O Brasil valoriza bobagens como o debate na OMC e subsídios. Isso é para esconder suas mazelas. Entre outras coisas, Camargo afirma: Se resolvesse as suas fragilidades domésticas, como a vigilância sanitária (que é uma piada), o País ganharia muito mais do que aquilo que estava posto na mesa em Dohas.
É a mesma coisa dos subsídios. O governo vive se queixando do subsídio que os outros países dão à sua agricultura. É puro cinismo pois sabe que Estados Unidos e Europa não vão mudar. Subsidiar a produção de alimentos é sabedoria. Parabéns para quem subsidia. Aqui não. Aqui no Brasil, longe de ganhar estímulos, quem produz comida é massacrado por impostos e tem que competir na corrida do mercado com uma bola de ferro nas pernas. Um cipoal de leis trava tudo.
A nossa prosa de hoje foi inspirado na carta do leitor e produtor José Fontes (Habemos ministro de Agricultura) que analisa o pronunciamento de
Reinhold Stephanes.
Até sábado
H. Ramos Bezerra





