UM DEDO DE PROSA
Eu sou um saudosista. E cada vez que eu vejo os políticos falando e agindo, sinto mais necessidade de exercer o meu saudosismo. É questão de sobrevivência, acho.
Lembrando do meu pai, dos amigos do meu pai - e principalmente dos homens da cidade com quem ele negociava - sinto alívio. Alívio por saber que neste Brasil de Nossa Senhora Aparecida e São Sebastião, padroeiro da minha cidade,
já tivemos gente de
qualidade.
Um exemplo foi quando meu pai mudou a venda rural para a cidade. A venda rural era um boteco de madeira, balcão empoeirado, à margem de uma rodovia (antiga boiadeira) sem asfalto; tinha cancha de bocha, etc.
Novo endereço, novas instalações: trocou a geladeira movida a querosene por uma elétrica e comprou um balcão frigorífico, que era moda.
O dono da fábrica de balcão e móveis comerciais em geral, era sócio e
brimo da máquina de café com quem meu pai negociava há muitas e muitas safras.
Naquele tempo, não se comprava nada a prestação; não havia crediário. Meu pai tinha mercadoria mas não tinha capital.
Veio uma idéia, partiu da própria fábrica: paga com a colheita do café.
E assim foi feito. Era meu pai, caboclo, com sotaque italiano, negociando com turcos e sabendo que jamais faria um negócio da China.
Mas fez. Tal a honestidade dos comerciantes, quase todos os comerciantes, da época.
Três meses depois, o contador da indústria convida meu pai a passar no ecritório para fazer um ajuste de contas.
Aconteceu que a relação saca de café versus balcão frigorífico havia mudado porque houve um reajuste no preço do café. O mercado subiu e sobraram sacas de café. Meu pai fechou o lote de café - que sobrou - com a própria indústria.
Feita a conversão, meteu no bolso quase o equivalente à metade do valor do mobiliário (balcão frigorífico, prateleiras. etc). Tinha até uma escadinha - segundo meu pai, cheia das frescuras. (É que, no sítio, ele usava uma escada rústica para colher café e laranja lima ou para subir no telhado toda vez que a nossa irmã escondia a bola que estragava vasos de flores).
Meus irmãos se emocionam, às vezes choram, ao lembrar da história da devolução do dinheiro. Logo os turcos?! Pois é. Turcos, italianos, japoneses ou brasileiros. A ética não tinha nacionalidade.
Não pretendo que o leitor tenha a mesma sensação que nós. Mas gostaria de traçar um paralelo entre aquele tempo e o Brasil de hoje. Custa acreditar que isso não passa de conversa fiada. Aliás, quem vendia fiado não perdia, recebia na venda da colheita.
Até sábado
H. Ramos Bezerra





