UM DEDO DE PROSA
Quando há ética nos
negócios, a moeda
pode ser a mesma,
mas o valor moral
é diferente
A ética no campo, lá pelos idos de 1950/60, era feita e cumprida em cima de posições, atitudes, modo de agir. Ética era, assim, tipo bom senso - independente da definição do dicionário. Ética era baseada na postura dos indivíduos. Questão de honradez, fio de bigode, etc.
Hoje em dia fala-se de ética quando há roubos, negociatas. Ora, isto transcede a questão ética...isto é crime. Propina e corrupção são crimes. Quando um político chega a esse ponto é porque a ética já foi atropelada faz tempo. Claro que quem faz negociata, recebe propina e pratica nepotismo é, também, um transgressor da ética.
Mas, deixemos a bandidagem da política e vamos falar da ética no campo.
Cada um tinha sua ética.
Lembro-me, por exemplo, da venda de um touro da raça Caracu. Azulão. Uma pelagem vermelho-escura, preta no dorso; a cara também era preta. Todos na redondeza o admiravam. Era raçador, como se costumava chamar os touros melhoradores.
Naquele tempo a diferença de preço entre um boi de raça e um de corte era pequena.
Mas como o fazendeiro tinha sua ética, acabei ouvindo uma conversa interessante entre meu pai, dono do Azulão, e um comprador que apareceu lá, interessado no touro.
O cara mandou a oferta.
E meu pai encheu o vivente de perguntas: É para cria que o senhor precisa? Ou é para corte? De que fazenda o senhor é? Vai pôr o touro em que vacada?
Não sei se disseram para o senhor - continua meu pai - mas só vendo prá outro pasto. Se for prá frigorífico o preço é outro. É mais caro e não convém o senhor comprá.
Também ético, o cara do açougue, se limita a dizer: Está certo.
Abre a porteira, entra no pasto para virar o caminhão, um chevrolézinho 51, desce e fecha a porteira. Olha para o meu pai e ainda acena com a mão e uma frase: Descurpa, senhor.
O meu pai queria sim vender o touro. Por precisão (como dizia quando precisava de dinheiro) ou porque o pasto já tinha uns três tourinhos filhos do mesmo Azulão. O fato é que o animal estava à venda.
E aí, meu amigo, vem a explicação ética. Só pode ser ética.
Meu pai só vendia o reprodutor se fosse para outros se beneficiarem da boa genética. Afinal de contas, estava vendendo um animal, não um monte de bife.
Moral da história:
Quando a ética é uma convicação, até o dinheiro muda de orgulho. A moeda pode ser a mesma, mas o valor moral...quanta diferença!
(Baseado no relato de Santo C.Rodrigues Crepaldini, de Nova Londrina)
Até sábado!
H. Ramos Bezerra





