UM DEDO DE PROSA
''Tião não come mais feijão... Tião morreu nessa madrugada.''
Em muitas regiões do interior de Minas e de São Paulo até aviso de morte tinha que ter feijão no meio. Pois era assim que se anunciava o ''passamento'' de um vizinho, um amigo. O feijão era a referência.
Assim, só morrendo mesmo para não se comer mais feijão.
Em fronteiras gaúchas a alusão ao feijão já apareceu, um dia, em prosas e versos dos folcloristas campeiros:
-- ''Vivente que vive, o feijão vivencia. Se não vivencia é levado de vencido. Mas se o vivente é dos bom, não se lhe nega o feijão''.
Bem, o Brasil caboclo mudou, o hábito de as pessoas se comunicarem ganhou formas mais modernas e também mudou. O feijão não.
Pera aí: o feijão não?
Corrigindo: o fejão sim. Mudou. O grão, sua riqueza, sabor, cheiro, aroma...tudo isso não mudou. Não mudaram suas qualidades intrinsecas, sua proteína, etc e tal.
Mas o papel do feijão mudou sim. Não se pode dizer que ele, hoje, é um excluído. Mas a modernidade lhe limitou o espaço.
Agora a pergunta: será que foram apenas a vida moderna, a falta de tempo, o trabalho da mulher fora de casa, etc, que reduziram o consumo do feijão?
Conversa. Mentira.
Quem reduziu a frequência do feijão no cardápio do brasileiro foi a falta de uma boa política de abastecimento que regularize a oferta. Foi a falta de garantia ao produtor, que precisa seguro porque a cultura é muito sensível. Foi a omissão do governo, que está ausente de tudo. Falam que há cooperativas incentivando a produção de feijão. Pode ser. Mas o cooperativismo nunca contemplou o produtor do feijão; as cooperativas não quiseram sair da zona de conforto e correr o risco. Ignoraram a função social do feijão, na roça e na mesa.
Portanto, foi a somatória de tudo isso. Há épocas do ano que o feijão vira comida de rico, pois seu preço é alto. O mercado é manipulado de tal forma que o produtor nem sempre se beneficia dos preços.
Portanto, fica claro que mudou.
E lá no Brasil caboclo, qualquer dia vão anunciar a morte dos campanheiros assim:
-- Tião não come mais macarrão instantâneo...Tião morreu.
Até sábado.
H. Ramos Bezerra.





