Gente eu vi um caminhão de toras! Foi mais ou menos entre Paranavaí e Nova Londrina. O Caminhão de carregar toras, ou ''caminhão-de-tora'' era o veículo cuja carroceria fora adaptada ao transporte de toras. Pesadas! E tora (para os jovens) é o tronco das árvores (peroba, ipê, cedro, imbaúva, mógno...) transportados da mata para a serraria, na cidade.
Eu tinha tudo para ficar com raiva. Mas bateu uma saudade porque quando guri, eu vendia frutas na beira da estrada e parte da clientela eram motoristas dos caminhões de transporte. Paravam para esfriar o motor a óleo cru (mais tarde me falaram que era diesel) que vinha cansado pela estrada de terra.
A exploração de madeira ainda não era uma prática condenável, quem preservou foi por consciência própria, não havia proibição (Talvez por isso, estamos morrendo de medo, hoje, dos destemperos climáticos).
O caminhão que eu vi era igual aos antigos, marca Réo, sem cabine. Tinha também o Fordinho ''chorão'' movido à gasolina e o mercedes de ''nariz para fora'', os primeiros que chegaram ao Brasil. Ah, e alguns ''Fenemês''. Estamos no início dos anos 50.
Num primeiro momento a saudade era mais forte do que a raiva que pudesse ter, afinal o caminhão (caminhão-de-tora) era estigmatizado pois fazia parte da parafernalha que acabava com as florestas.
Só sei que esse estava a serviço da fazenda, encostado. Hoje não teria condições de pegar a estrada.
Caminhão de tora, assim como as serrarias, lembra colonização, desmatamento. Mas aquela gente desbravadora não tinha idéia da loucura que estava fazendo. O corte era feito através de machado.
Não dá para condenar esses pioneiros. Até dá sim, para responsabilizá-los. Mas eles não tinham as informações que se tem hoje, sobre mudanças climáticas, poluição, assoreamento de rios, enfim as consequências do estrago que estavam fazendo ao desmatar adoidado.
E os caminhões de hoje? E aquelas filas de caminhões gigantes que se vê na Amazônia? Olhando de cima parace um ''carreiro'' de formigas, tal é a quantidade. E os milhões de toras que descem pela correnteza dos rios? As serrarias não estão nas cidades, estão dentro da mata.
Hoje o homem sabe das consequências. E mesmo assim destrói.
Existem leis. E mesmo assim vendem madeira sem parar.
Existe órgão fiscalizador. Mas não adianta. Porque também existem os interesses e a corrupção.
Nunca se desmatou tanto ''nestepaís''.

Prosa inspirada na informação do leitor H.A.Gomes da Silva, de Campina Grande.
Até sábado, H.Ramos Madeira

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