O que o consumidor prefere: um alimento livre de veneno ou discursos ideológicos (e cínicos) contra multinacionais?

Que pena, não? Numa reportagem deste jornal, esta semana, em que se denuncia o excesso de agrotóxico no meio ambiente, um técnico do Departamento de Fiscalização do governo se queixa da ‘‘pressão do comércio’’ para vender agrotóxico. E diz exatamente o seguinte: ‘‘Grande parcela do faturamento das cooperativas está na venda de agrotóxicos’’.
A pesquisa levou uns 20 anos para descobrir técnicas de manejo de pragas. Mais do que isso, técnicas de controle biológico das pragas. Nossas técnicas estavam à frente da pesquisa norte-americana. À época os técnicos comemoravam o fato de algumas propriedades tirarem toda a safra sem precisar fazer mais do que uma - ou então nenhuma - aplicação de veneno. De repente é preciso que o Ministério Público Estadual intervenha e questione sobre o excesso de veneno das lavouras, todas as lavouras, não apenas a soja.
Que retrocesso! Que retrocesso os governos de Lerner e Requião, principalmente nesses últimos anos.
O lado ideológico amaldiçoa as multinacionais. Veneramos a Via Campesina. Porém, no campo, deixamos as multinacionais tomarem porre às custas do produtor e do ambiente.
A nossa dialética marxista, o nosso ideário de esquerda - que quer deter a exclusividade de consertar o País - não inclui a melhoria no ambiente. A não ser, é lógico, na vontade de multar.
As multinacionais devem adorar essa postura. Ninguém aqui está execrando os fabricantes de insumos. Temos o pé no chão. As plantas, hoje em dia, não podem prescindir do controle de pragas e doenças. Não sejamos radicais. Mas abrir as comportas do jeito que está não é possível. O consumidor não merece.
Não seria melhor esquecer o discurso contra multinacionais e orientar o produtor para o uso correto? Mas discursar é mais fácil. Discurso dá mídia sem precisar tirar o serviço público da zona de conforto.
O que o consumidor prefere: um alimento livre de agrotóxico ou as cenas (dantescas) da destruição de estações experimentais e laboratórios de grandes empresas - que buscam o desenvolvimento científico?
Mas o governo é cínico. Acha bonito a agressão aos investimentos em tecnologia (pelo menos não reage para pôr ordem na casa). Porém permite, que no dia a dia, o veneno cubra os campos verdes do Paraná. É o que se conclui da reportagem da FOLHA ‘‘Crea-PR cobra taxa e não fiscaliza uso de agrotóxico’’.

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