No momento em que os produtores se organizam para dizer que não são culpados pela fraude no leite, vem uma técnica e diz que o leite ‘‘chega muito ruim na indústria’’

Parece falta de sorte. Os produtores estavam se preparando para mandar um recado: o leite sai da propriedade puro, perfeito. Da indústria para frente é que a coisa se complica. Esse seria o recado. Foram muitos os produtores que ligaram para a FOLHA se defendendo. Técnicos de campo também ligaram defendendo os produtores.
Mas seria difícil convencer o consumidor que produtores não têm culpa no cartório, nessa história das fraudes na indústria, principalmente quando a indústria é da cooperativa. E, teoricamente, pertence ao produtor. Pelo menos teoricamente. Se a indústria é dele (?) ele tem responsabilidade sobre o que ela fabrica e vende.
Muito bem. Se já estava difícil convencer o consumidor, imagine depois que a FOLHA divulgou, na quarta-feira, a entrevista com uma técnica de laboratório da UEL. Na entrevista, uma acusação aos produtores. E a técnica tem autoridade para falar porque ela faz análises do leite.
E o que diz a técnica? A técnica diz o que nenhum produtor gostaria de ouvir.
‘‘O maior problema está na produção. A matéria-prima já chega muito ruim na indústria. A contaminação vem principalmente da teta da vaca, do latão e da mão de quem ordenhou’’.
A declaração deixa a impressão de que é uma defesa à indústria. Penso que não.
Como se isso não bastasse, ela ainda diz o seguinte: Tem também o problema do antibiótico, que é aplicado no animal contra determinadas doenças. Cada antibiótico tem prazo de carência, período em que o remédio é eliminado pelo leite. Nesse período é proibida a venda do leite, mas isso, às vezes, não é seguido pelos produtores...’’
As conseqüências para o consumidor desse leite - com resíduos de antibióticos - é que seu organismo vai adquirindo resistência ao antibiótico.
E a técnica da UEL ainda levanta a questão dos agrotoxicos.
Está criado um problema entre os produtores e suas cooperativas. Situação é agravada pela frase que está nesta edição da FOLHA RURAL. Diz o produtor Valdeir Martins: ‘‘Somos penalizados pela cooperativa, se entregamos leite de má qualidade. Mas o destino do leite ruim é desconhecido’’.
  O melhor que cada um faça o melhor possível para não haver essas acusações mútuas. O único que não tem a quem acusar é o consumidor, cuja saúde está ameaçada. Alguém vai pagar esse pato. Pode surgir uma onda de ações indenizatórias contra as indústrias. Até sábado.

H. Ramos Leite

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