UM DEDO DE PROSA
A figura do agricultor hoje é de alguém que segura a vaca
para os parasitas
mamarem à vontade.
Por favor, discorde!
Pois é. Não é de hoje. A indústria, os governos, principalmente os governos, jogam com o lado sentimental do produtor. Resultado bom para o agricultor é ver a planta crescer e produzir bastante. Produzir bastante e ainda com qualidade. É ver a planta viçosa. E o desafio é o clima. Se o tempo correr bem...tá tudo bom. O negócio é produzir e produzir sem parar (igual galinha). É mais fácil brigar com São Pedro, pela chuva, do que brigar com o governo por melhores preços.
Só que tem um detalhe: o que enche os olhos não enche os bolsos. Não necessariamente, pelo menos. E planta viçosa, produzindo bem não é necessariamente, planta lucrativa.
Muitos anos atrás, a antiga Acarpa, a Acarpa apolítica (naquele tempo, gente, a assistência e a extensão eram melhores, certo?) colocou em prática uma campanha: Quem não sabe quanto gasta, não sabe quanto ganha. Era para o agricultor fazer as contas. Questão de gerência. Gestão.
Muitos dos leitores discordam. Vão falar que esse romantismo de administrar com os olhos é coisa do passado. Vão dizer que hoje o produtor tem que administrar bem para não acabar falido...
Ora, Deus do céu! E o que está ocorrendo não é isso? Perguntas: nos melhores anos, nas safras em que consegue guardar algum dinheiro, o agricultor descontou a depreciação do equipamento? corrigiu o capital aplicado? O capital fixo? Reinvestiu na terra? Aplicou algum insumo para recuperar sua fertilidade? Com o bom resultado da última safra pode dar-se ao luxo de deixar a terra descansar nos próximos dois anos (pousiu)? Pode, então, abrir mão de uma safra a cada 5 ou 8 anos?
Se, na sua propriedade, a resposta para todas estas perguntas é SIM, parabéns.
Aquilo que o engenheiro agrônomo Nelson Salim Abud falou na FOLHA DE LONDRINA, no meio da semana, está certo. Agricultor vive de paixão. Mas até quando?
Ninguém reage.
Mas a história não vai atribuir aos políticos a derrocada do campo e da produção de alimentos. Os políticos, no governo ou fora do governo, não têm compromisso com as coisas sérias. Político é político. Tudo será debitado ao produtor. Ele está se permitindo passar pela história como alguém que não fez agricultura, não cultivou...apenas explorou. No Brasil agricultura é exploração da terra, literalmente, e outros recursos finitos.
Nelson Salim falou como pesquisador, como pequeno proprietário enfim como alguém lúcido que resolveu abrir a boca, algo que todos os técnicos deveriam fazer. Não fazem nem através de suas associações. E o agricultor só sabe vergar o corpo, inclinar a cabeça e produzir.
Até sábado
H.Ramos A.Terra





