Cangas e cangalhas
Tirem de mim essa canga
Tirem também essa cangalha
E eu lhes garanto
o trigo do pão;
a fruta do suco
o milho da pamonha quentinha
na palha

Tire de mim essa
canga e eu lhes garanto
a beleza dos girassóis
e os encantos do campo
Tire de mim essa cangalha!

O leitor de Lupionópolis manda o seu apelo em forma de poesia. Os primeiros versos falam de cangas e cangalhas. Ambas são instrumentos primitivos, de madeira bruta, usados no interior do Brasil atrasado. A canga é uma armação de madeira que prende os bois pelo pescoço para tracionar o carro-de-boi, a arroça ou o arado. Além de puxar, o animal é submetido ao sacrifício do peso do apetrecho rudimentar. A cangalha se aplica mais ao burro carregador porque é posta de forma a dar suporte à carga: leva o leite para a cidade e volta com as compras.
Cangas e ou cangalhas são sinômino de tortura porque o animal poderia ser usando como aliado no trabalho sem passar pela humilhação e maus tratos. O peso da canga...ou da cangalha, inclina a cabeça do animal que fica com o fucinho pressionado quase rente ao chão.
A canga ainda é usada. A canga de hoje é representada pelo peso dos impostos, pelas exigências da burocracia, pelos juros, pelo descaso dos políticos, pela falta de segurança no campo. A agricultura é como uma galinha, tem que botar e botar.
O agricultor é um transferidor de rendas. Transfere para os banqueiros, para as multinacionais e para o governo. Sobra pouco. Como esse pouco, não tem como investir na terra para devolver-lhe a fertilidade. Então ele vira um explorador, um extrativista. Não dá folga ao solo. Não faz o chamado pousio, o solo não descansa. Tem que fazer duas ou três safras por ano, sempre pagando dívidas. Sempre pagando os bancos. Tem que tirar o trigo, plantar a soja, colher a soja e plantar o milho, tirar o milho e plantar o trigo, a soja o sorgo... enfim, não pára de explorar. O pior é que essa política colocou o agricultor na condição de gigolô. Ele não merece, mas também não reage.
No fim todos mamam, todos colhem na cidade e no campo, até o dia em que este enorme Brasil vai virar um deserto.
Tudo porque não tiraram as cangas e as cangalhas da agricultura, esse (por enquanto) imenso úbere que serve a todos. Mas um dia ele vai secar. Porque ‘‘os bois de carro’’ - como eram chamados os puxadores de carroções do início do século passado - também se cansam e depois de cair de joelhos tantas vezes, perdem a força e não se levantam mais. Mesmo sob golpes de chicotes.
Apesar de tudo, a nossa homenagem aos agricultores do Paraná e do Brasil.
No lugar da canga e da cangalha nós lhes oferecemos a nossa Medalha de Ouro.

mockup