UM DEDO DE PROSA
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de abril de 2007
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
Algumas pessoas acham que o Brasil é um país órfão e se esquecem que quem tem mãe tem tudo - pelo menos essa é a esperança dos que se agarram na devoção à Nossa Senhora Aparecida, segurando na barra do manto da virgem, que rogaria por nós os pecadores.
Dizem que Deus é brasileiro e não é demais acrescentar que sua mãe também, já que uma imagem dela achada nas águas do Rio Paraíba, em Aparecida do Norte (SP), em 1717, tem o rosto do povo.
É nas mãos dessa gente, como dona Conceição Aparecida, mulher sem leitura, descendente de escravos, que a devoção foi sendo apurada, como doce caseiro preparado em dia de festa para celebrar a data da padroeira.
Com o netinho olhando admirado, a mulher pega uma imagem da santa que, há muitos anos, comprou na cidade que receberá a visita de Bento XVI, o segundo papa a visitar a Basílica, considerada um dos maiores templos marianos do mundo.
O garoto pergunta que santa é aquela. A mulher põe ao lado da imagem uma Bíblia.
Apesar de não saber ler, ela acredita que um copo de água sobre a palavra santa e suas orações trarão as bençãos de Deus pelas mãos da mãe.
Conceição conta para o menino, que aquela santa negra é Nossa Senhora Aparecida, uma imagem achada pelos pescadores Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso num dia em que os peixes fugiram do rio.
Com os olhos nas escrituras populares da devoção, Conceição Aparecida diz que os moços estavam quase desistindo da pescaria, quando das águas brotou a cabeça da imagem e uma fartura de peixes.
Os pescadores construíram um oratório às margens do rio, no Morro dos Coqueiros. Não demorou muito para o local se transformar num centro de peregrinação.
''Oiá, lá que Nossa Senhora Aparecida libertou um escravo das correntes, derrubando do cavalo um cavaleiro, que tentou entrar na igreja montado no animal'', repassou a mulher ao neto um pouco de tradição popular.
Durante a vida, ela também sabia de outras histórias. Numa delas, Jesus falou a São Pedro, que fechasse as portas do céu, já que estava muito lotado.
O porteiro do céu cumpriu a ordem, mas Jesus percebeu um pecador novo a cada hora.
Ao tirar satisfação de Pedro, o primeiro papa retrucou ao Divino: ''Mestre, eu fechei as portas do céu, mas não adianta. A sua mãe está lá na janela, puxando todo mundo por uma cordinha cheia de contas e um crucifixo na ponta''.
Quando essa pequena história de devoção for lida, dona Conceição Aparecida já terá feito o caminho de volta à casa de Deus, talvez puxada por Maria, que estaria na sala de visita para recebê-la, como faz com todos os pecadores, que acreditam que ela roga por nós.


