Na varanda de um casebre à beira de uma movimentada estrada de terra um senhor e seu neto observam o sobe e desce dos carros. O avô aproveitava para contar algumas histórias da juventude para o garoto. Naquele dia, seu Manoel Manga Larga conseguiu resgatar álá do fundo da memória uma daquelas que se passaram nos idos dos anos 50, época dos seus 25 anos.
- Eu montava cavalos que era uma beleza, Juquinha. Poucos tinham tanta destreza como o vovô. Eu tinha dois cavalos, uma égua e dois burros. Também era destro em amansar. Pegava o bichão chucro láá nos criadouros do Jeremias Nelore e trazia para o meu sítio. Chegou época de eu amansar até 10 animais por semana no meu pasto...
- Nossa vovô, não sabia dessas histórias não. Minha mãe conta que o senhor sempre teve sítio, mas nunca que era amansador de cavalos...
- Pois eu montava de fazer inveja nos outros rapazes, guri... Mas minha especialidade era colocar rédeas. Sabia alar meus cavalos e saía pelas outras propriedades, por quilômetros e quilômetros frequentando os rodeios e as quermesses...
Com seus bem vividos 70 anos, jáá era ritual para o 'velho' Manga Larga contar as peripécias da juventude aos herdeiros. Lógico que, como ele aumentava sempre um pouquinho, a esposa dona Dina sempre que escutava algum absurdo ááinterferia, lá do sofá da sala.
- Teve um ano em que eu ganhei um rodeio em primeiro lugar. Segurei um touro chamado Furacão. Rapaz, aquilo deixou meu coração a mil Juquinha. Segurei o bicho quase 30 segundos a mais que o segundo colocado. Me lembro que na época eu usava um chapelão...
Dona Dina parou o crochê, olhou por cima da lente dos óculos e láá da sala interferiu na conversa dos dois.
- Mas é que você não conhece as histórias dos tombos meu neto. Porque o senhor não fala deles também, hein, seu Manoel? - Naquele tom de voz estilo ''bronca de esposa''.
O pequeno Juca só olhava, sem entender a discussão daqueles dois, que na verdade parecia mais uma troca de gentilezas.
- Houve um dia - começou a falar de novo Manoel - que estava háá uns 60 quilômetros de casa. Resolvi desbravar outros lados com meu cavalo. Num momento de bobeira, o animal se assustou com um bicho que saiu do mato e atravessou a estrada. Ele deu um galope e me derrubou no mesmo instante. Bati o ombro no chão e não parava de doer.
- Nossa vovô - disse o menino assustado.
- E mais. Fiquei numa situação complicada. O único jeito foi montar nele e seguir viagem. Mesmo depois de caído não tem outro jeito senão vencer o medo de subir novamente no mesmo cavalo.
Renato Oliveira, repórter da Folha de Londrina
*** Prosa inspirada na vida dos homens do campo que ainda precisam da força animal para desenvolver as atividades diáárias.

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