UM DEDO DE PROSA - Trem bão
A falta de chuva numa safra e o excesso de água na outra deixou o pessoal da Água do Beijo de cabeça baixa. A maioria dos produtores dali plantavam hortaliças por causa do tamanho das propriedades, todas com menos de cinco alqueires. Mas chuva em excesso ou falta dela afeta tudo quanto é lavoura e mesmo o pessoal das mecanizadas, que arrendavam três ou quatro sítios para produzir milho e soja, estava no prejuízo. Baixo astral em qualquer um das três vendas da comunidade.
Para piorar, o povo dali era turrão, por causa de brigas antigas. Fazia 30 anos que a turma dos Ariolli não falava com o pessoal dos Schuter, desde que os patriarcas das duas famílias disputaram uma vaga na Câmara de Vereadores da cidade sede. Brigaram por que um ficava tentando arrebanhar os votos que eram do outro e vice-versa. Nenhum se elegeu.
Os donos das três vendas também não se falavam. E sempre que se entrava em uma delas, o proprietário estava falando mal dos outros dois concorrentes. Nenhum dos três vendia bem, pois a oferta de produtos era pequena e não conseguiam concorrer com o mercado da cidade, distante 17 km, mas que vendia mais em conta.
Em torno de 70% da população era católica e 30% evangélica. O padre e o pastor não iam com a cara um do outro. O primeiro achava errado a igreja evangélica ter sido construída quase ao lado da católica, que já estava ali há cinco décadas. O pastor achava que o padre não passava de um encrenqueiro.
Mas por uma dessas coincidências divinas, no mesmo domingo eles comentavam, um no culto outro na missa, sobre o ensinamento de Jesus Cristo, que ensinava aos homens amarem-se uns aos outros. Ambos se tocaram que estavam sendo hipócritas, pois não davam exemplo das palavras bíblicas mantendo aquela briguinha boba. Nascia uma amizade e uma semente do associativismo.
Deixaram as diferenças de lado e, juntos, construíram um centro social. Antes nenhuma das duas igrejas tinha onde fazer as promoções por falta de grana para construir. Ali foi feito o primeiro casamento de Água do Beijo - a união dos Ariolli com os Schuter, pôs fim à briga. Na festa do casório, decidiram que o Silva, verdureiro, homem de boa índole, seria o candidato a vereador do distrito. E só ele. Sem divisão de votos, foi eleito e passou a reivindicar os interesses do lugar.
Foi o Silva que juntou os três donos de vendas para formarem uma associação, deixando as diferenças de lado, para comprarem juntos, conseguindo vender mais barato, concorrendo com os mercados da cidade. Os produtores gostaram da ideia. Passaram a comprar insumos juntos.
Anos depois, comentariam na praça em frente ao centro comunitário construído pelas duas igrejas que esse tal cooperativismo é ''danado de bão''!
H. Ramos Bezerra





