UM DEDO DE PROSA - Resposta difícil demais
A manhã está gelada, como tem sido nos últimos dias. A relva sobre o pasto transforma em branco o verde da grama. As galinhas ainda estão quietas. Algumas não saem do ninho para nada. Até a vaca parece que fica mais preguiçosa com as temperaturas baixas. A mão enrugada de José, calejada por 80 anos de vida ainda não está trêmula. Ele goza de boa saúde, apesar de ser fino como um palito. Pega o bule de café forte e contempla a fumacinha que sai enquanto despeja o ''pretinho'' na caneca. Em seguida, mistura com o leite que acaba de ferver.
Sopra e delicadamente vai tomando do líquido, aquecendo o corpo. Repete o mesmo ritual todas as manhãs há muitos e muitos anos, desde que se casou com Zica. Ela é que lhe ensinou a tomar um bom pingado antes de ir para a roça. ''Ah! Zica!'', ele suspira a cada vez que se lembra dela. Já há três anos que a mulher se mudou para o céu, deixando-lhe ali, sozinho. E por mais que se esforce, não faz café igual ao dela. A lágrima escapa, escorre pela face, vencendo as rugas sob os olhos. Depois sorri. Lembra do quanto os dois foram felizes ali. Criaram as três crianças. Depois viram crescer os quatro netos. Agora já havia um bisneto, arteiro e perguntador, com 10 anos.
Lá dentro, o menino, que passa os últimos dias de férias no sítio, pula da cama. Deixando no chão as três cobertas que lhe aqueceram na noite gelada. Tem sido assim todos os dias. O bisneto quer aproveitar o tempo ao lado do ''Biso Zé''. Também pegou gosto pelo café com leite e come duas fatias generosas de pão caseiro. Já nem pede mais o tal de ''sucrilhos'', que José nem sabe o que é. Ambos estão meio tristonhos. É o último dia que ficam juntos. As aulas estão para voltar. Talvez por isso o menino esteja mais perguntador ainda do que o normal. E se atreve a tocar num assunto que o velho não gosta.
- Biso Zé, é verdade que o senhor já foi político, igual àqueles que aparecem na televisão?
- É, filho, é - responde o bisavô tentando encerrar o papo.
- O senhor era presidente?
- Não, filho. Prefeito. E vamos falar de outro assunto...
- Por que o senhor não é mais prefeito.
José respira fundo, não quer peder a paciência, e responde.
- Por que acho que contribuí o bastante em quatro anos. Depois, era a vez de outro. Além disso, eu levava mais jeito para a roça, para lidar com os bichos. Lidar com os homens é difícil. Eles logo falam em acerto, jeitinho, minha parte...
- Mas Biso Zé, por que o senhor não ficou rico? Meu pai falou que os políticos quase sempre ficam ricos... - insistiu o garoto.
- Termina logo o café que temos que recolher os ovos das galinhas - encerrou o bisavô, sem saber direito como responder à pergunta.
H. Ramos Bezerra





