UM DEDO DE PROSA - Receita para comprar bacalhau
Outro dia, passando por Assaí a caminho de Londrina, eis que o carro superaqueceu e eu precisei parar para colocar mais água no radiador. Parei em um boteco mesmo, só uma garrafinha d'água já seria suficiente para chegar até em casa.
Entrei, fiz meu pedido e só então reparei que todos os cinco homens ali dentro - mesmo os dois que jogavam sinuca - tinham parado para ouvir a história que um senhor japonês estava contando.
O homem, que aparentava ter uns 70 e poucos anos, falava em bom português e com pouco sotaque. Mantinha os cabelos bem penteados, bigode preto, paletó claro e tipo físico de quem lida até hoje na roça. Não tinha cara nem jeito daqueles velhinhos sábios orientais. O rosto vermelho denunciava o alto teor alcoólico. Curioso, parei para ouvir também.
Dizia o japonês que sua raça tinha sofrido muito para se adaptar ao Brasil, mas que também tinha achado os nativos daqui muito engraçados. ''A gente via vocês fazerem tudo ao contrário e achava graça. O arroz era doce, o feijão era salgado!'', contou, e segurou o riso ao ver que ninguém ali havia entendido a piada. E continuou:
''Meu compadre foi à venda do português para comprar peixe, porque a gente não era acostumado a comer carne. E peixe aqui naquela época era muito raro, era mais fácil pescar no rio. O compadre foi comprar peixe mas não conseguia fazer o português entender. Sabe como é peixe em japonês? Sakana'', afirmou, e desta vez foi interrompido por uma gargalhada geral.
''Ele repetiu 'sakana' até o dono da venda ficar brabo. Fez gestos com os braços, como se estivesse nadando, assim, ó'', e sua desajeitada imitação de peixe gerou outra onda de risos.
''Daí, já bastante nervoso, meu amigo gritou 'Bakayarou!'. Estava xingando o português de burro. E adivinha o que aconteceu? O vendedor foi lá no fundo e trouxe um pedação de bacalhau!''
Enquanto os homens ainda riam, o japonês tomou mais um trago em um gole só. Paguei a minha água e fui saindo, mas ainda consegui ouvir a conclusão da história:
''Quando chegou lá na comunidade com o peixe nos braços, meu amigo foi saudado com muita alegria. Ele então saiu ensinando para todos os japoneses que para comprar peixe na venda era só xingar o dono de burro.''
H. Ramos Bezerra





