UM DEDO DE PROSA - Quaresma: tempo de reflexões
Quando era criança, minha avó fazia todos os netos se sentarem ao redor do fogão à lenha quando anoitecia para passar lições sobre o período de quarenta dias em que Jesus Cristo peregrinou pelo deserto. Durante toda a Quaresma, o rádio a pilha, o velho televisor preto e branco ainda só uma caixa meio iluminada que xiava e piscava vultos quase irreconhecíveis e todos os espelhos eram cobertos por lençóis e ficavam em desuso durante todo o período de penitência.
Um suplício incompreensível para crianças que começavam a descobrir o mundo. Mas para católicos como minha avó e meu avô, as regras religiosas não eram negociáveis. Seguia-as e pronto. Era assim também durante as refeições. Carne de porco, de galinha, de boi... Tudo isso era retirado do cardápio durante os 40 dias de jejum e reflexão. A mistura era o peixe, por ser este um alimento singular e cheio de significados para todo cristão.
E durante a Quaresma, também era tempo das novenas. Nos dias marcados, as famílias visitavam os vizinhos para orar, cantar e refletir sobre seus atos. Levavam junto a fé, o carinho e o afeto para os doentes e outros que, naquele momento, mais precisavam. No final do terço, todos se cumprimentavam e ceiavam com pães, bolos e um cafezinho coado na hora. Coisas bem simples.
E para aquietar a criançada em casa, principalmente à noite, minha avó lançava mão de outros artifícios. Na roça, a Quaresma era um tempo em que as histórias de almas penadas e assombrações ganhavam uma dimensão ainda maior no universo infantil. Quem desobedecesse as regras, ou mesmo tentasse burlar o que era exigido pelos mais velhos, sabia que corria o risco de sofrer as punições.
Minha avó advertia que menino mal criado tinha que saber que lobisomens, mulas sem cabeça e outros seres viriam visitá-lo. Os seres bizarros arranhavam portas e janelas, puxavam os pés à noite estragando o sono, faziam os cachorros uivarem de raiva durante a madrugada, matavam as aves do galinheiro, emaranhavam as crinas e chupavam o sangue dos cavalos. Não era brincadeira.
Hoje em dia, a Quaresma ainda tem um forte significado para muitos mas para tantos outros o simbolismo de outros tempos se perdeu com a passagem do tempo, e a falta de tempo. Pouco se fala em penitência, em jejum, em reflexão, em união, em fé. As TVs, os rádios e espelhos de hoje já não ficam mais cobertos. A carne vermelha não sai mais da mesa. Nem todas as famílias deixam suas casas à noite para visitar e dividir uma oração com seus vizinhos. Muitas crianças nem acreditam mais em assombrações. E boa parte delas já não se sentam mais ao redor do fogão para escutar os conselhos das avós.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA





