UM DEDO DE PROSA - Para rir e conectar é só começar
Faz cinco anos. Todo mês eu pedia ao menino mais velho, já muito bem letrado, que fez faculdade, pós-graduação e hoje trabalha em uma empresa importante lá da cidade, que digitasse no computador dele uns documentos que eu precisava para tocar os negócios aqui do sítio. Uns contratos de prestação de serviço com os ajudantes, para ser mais preciso. Hoje tudo tem que estar no papel, preto no branco, por conta das exigências trabalhistas. Sei que lá na frente do juiz os muitos anos de amizade entre eu e os moços que trabalham aqui não valerão de nada se não for tudo documentado.
Modéstia à parte, escrevo direitinho. Só não fiz faculdade, mas completei todo o ginásio. Ler diariamente o jornal há muitos anos também ajuda. Então, eu rabiscava no papel, com caneta, e o menino colocava dentro da máquina, imprimindo em seguida. Coisa bonita, bem feita.
Tudo ia bem até que ele apareceu com um computador aqui em casa. Disse que tava comprando um novo e estava dando aquele para mim. De modo que eu, já avô, poderia usufruir da modernidade e digitar os meus contratos, sem precisar pedir a ninguém. Achei desaforo demais. Se não queria ajudar era só falar, não precisava aparecer com este trambolho aqui. Desaforado, comprei máquina de escrever por R$ 100 e com ela e seu ''tec, tec'' passei a fazer meu serviço. Por três anos, não relei a mão no tal computador, que ficou coberto com uma capa que a mulher fez no capricho, para não juntar poeira.
Mas o filho é teimoso, e não levou o ''trem'' de volta, apesar da minha insistência. Até que apareceu com uns homens que puxaram fios do cabo telefônico e instalaram a tal de internet. Eu e a velha torcemos o nariz. Pra que aquilo?
No entanto, a mando do pai, o neto começou a azucrinar para que eu aprendesse a mexer na máquina, que ao menos tentasse. Para não deixar o guri triste, sentei ali, confesso, reclamando. Mas aprendi a ligar, depois a conectar, depois a pesquisar... E cá estou. Hoje reclamo quando a internet sai do ar ou fica lenta. Ainda mais agora, que descobri o tal do ''YouTube''. Lá é só digitar o que a gente gosta que as coisas aparecem. Então ouço Tião Carreiro e Pardinho - ''Mundo velho está perdido / Já não endireita mais / os filhos de hoje em dia já não obedecem os pais -; Pena Branca e Xavantinho - Debulhar o trigo / recolher cada bago do trigo / forjar no trigo o milagre do pão... E choro. Nunca achei que poderia ter acesso às obras desses poetas do meu sertão, já mortos.
No jornal, vejo que a mesma internet que me proporciona agradáveis minutos é usada para coisas tão ruins, como pedofilia, golpes financeiros, sequestros. O tempo passa e os homens não aprendem a usar direito seus dons. Que pena!
H. Ramos Bezerra





