Era uma tradição de final de ano: quando acabava o ano letivo, os primos da cidade grande migravam para o sítio da avó atrás de aventuras e liberdade. O tempo respeitava a magia da infância. Todo mundo reunido, de repente a criançada se alvoroçava ainda mais. Quando o tio abastecia o velho Landau quatro portas e colocava o motor beberrão para roncar no meio da tarde todos já sabiam o que iria acontecer: era dia de comer manga no pé.
O carro parecia mais um ônibus. Os poucos adultos que se arriscavam a enfrentar a disposição da gurizada só se lascavam porque, mesmo grande, a banheirona não dava conta de tanta algazarra. No ritmo dos solavancos da estrada de chão, a molecada sacolejava dentro do carrão até avistar do ponto mais alto do caminho as dezenas de mangueiras no sopé da montanha.
A visão atiçava o paladar. E a vontade ficava maior na medida em que a distância encurtava e o cheiro de manga madura caída no pasto ia tomando conta de tudo. Manga espada, manga rosa, coração de boi, coquinho... Tal qual a turba de pequenos predadores, os passarinhos disputavam palmo a palmo a fartura de fruta: quando incomodados, se afastavam por alguns instantes e voltavam em seguida; ignorados, faziam crateras com o bico na polpa doce e de amarelo intenso.
O tio só pedia para tomar cuidado com as cobras. Por debaixo das mangueiras, as cascavéis buscavam a umidade das pedras e proteção contra o calor do verão caipira. O ruído do guizo era o sinal de alerta. Havia ainda uma outra preocupação. Para proteger as crias recém-nascidas, as vacas raspavam o casco tentando amedrontar a molecada. Mas se não tivesse enfrentamento, logo desistiam e se acalmavam. Afinal, eram mães também e reconheciam a importância dos pequenos descobrirem o mundo por conta própria.
Feita a inspeção, todos eram liberados para subir nos pés de manga e se fartar. Os meninos subiam lá no alto, colocavam uma ponta da camiseta entre os dentes e improvisavam um saco. Quando não cabia mais fruta, uma a uma eram lançadas para baixo e arrumadas em um caixote. Entre um galho e outro, mangas eram degustadas alí mesmo e os fiapos enroscavam feito linha na arcada dentária. Depois, descíamos todos e continua a comilança em terra firme.
E quando o sol principiava esconder por detrás das montanhas era hora de voltar. ''Com o bucho cheio'', como dizia o tio.
H.Ramos Bezerra

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