Hoje em dia, a tecnologia permite que o homem do campo fique sabendo no dia anterior se vai ou não gear. É possível saber se o frio vai ser intenso, que regiões que serão mais atingidas, quais as culturas que correm mais risco. Mas e quando não havia satélite, estação meteorólogica, internet ou TV? Nem o rádio, tradicional companheiro da roça, conseguia salvar a lavoura.
Sobrava, então, só a velha e boa sabedoria popular do agricultor. No sítio, junho e julho eram os meses em que meu avô mais prestava atenção no céu e no clima. Era uma medida mais do que necessária para tentar, de alguma forma, amenizar as perdas. No cafezal, por exemplo, era bem difícil lutar contra as forças da natureza. Quando a geada era muito forte, quase nada se podia fazer para proteger os pés mais frágeis da planta. Já as com copas amplas tinham nas folhas uma proteção natural, ainda que o gelo que caía na madrugada queimasse o verde e conferisse a todo o pé um tom amarronzado, meio sem vida.
Meu avô se preocupava mais principalmente com aqueles dias em que o céu da tarde ficava todo limpo e azul, sem nenhuma nuvem. O temor crescia na medida em que a tarde ia ficando cada vez mais fria e o vento começava a soprar intermitente. O sol, coitado, parecia impotente e incapaz de gerar calor suficiente para aquecer a terra. Era certo: a manhã seguinte amanheceria coberta pelo branco do gelo.
Nestes dias, meu avô logo recolhia o gado no curral. Depois, corria para o galinheiro e descia a proteção lateral e vedava todas as frestas para que as galinhas e os pintainhos não congelassem durante a madrugada. Quando pressentia que o frio seria muito intenso, ele fazia fogueiras em meio às ruas no final da madrugada para tentar combater o gelo.
Minha avô recolhia para dentro de casa os vasos de plantas - samambaias, orquídeas e hortências - que, em dias comuns, eram deixados sob a sombra da árvore próximos à umidade do tanque de lavar as roupas. Sem demora, todos também se recolhiam logo que a noite caía. Vovó reforçava o estoque de madeira para manter o fogão de lenha acesso até mais tarde. Antes de dormir, ela ainda fazia um leitinho quente com açúcar para as crianças e colocava todos na cama, não sem antes se certificar que os cobertores eram suficientes. O calor da mão dela passando sobre a nossa testa aquecia o coração e nos ajudava a dormir mais depressa.
No outro dia, a gente acordava e, além do leite com café e pão quente, o fogão a lenha já estava aceso de novo, esperando que a gente pudesse aproximar os pés do fogo antes de ter que enfrentar o frio lá fora e ir para a escola.
Luciano Augusto, jornalista da FOLHA DE LONDRINA.

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