Quando criança, para diferenciar as minhas duas avós, eu costumava dizer que a mãe de minha mãe era a ''bachan do sítio'' ('bachan' é vovó em japonês). A casa da bachan do sítio tinha privilégios que só a zona rural nos permite, como um enorme terreiro para brincarmos, horta, chiqueiro, muitas galinhas, plantação de milho, pés de goiaba e jabuticaba e até um ofurô (na verdade uma daquelas caixas-d'água de fibra) aquecido a lenha.
Mas, para uma criança nascida e criada sobre o chão de concreto, o convívio com as coisas do campo nem sempre era prazeroso. O fogão a lenha fazia um feijão gostoso, mas enchia a cozinha de fumaça. No chiqueiro, a gente vivia pegando bicho de pé. A goiaba estava sempre ''bichada'', apareciam sapos no banheiro, era ruim dormir com tanto pernilongo e pior ainda com aqueles incensos verdes em forma de espirais que a bachan acendia para espantá-los.
Isso sem contar a lama, que manchava o vestido novo e grudava na sola dos calçados formando uma grossa camada. Ir à horta depois da chuva para colher almeirão e beterraba era praticamente um castigo.
Aliás, a chuva inviabilizava todas as atividades interessantes do sítio. Andar na carroça com o dichan (vovô), pegar ovos no galinheiro, comer jabuticaba direto do pé, brincar sob o pé de flamboyant? Impossível. Só restava moer café, ou folhear as revistas antigas da minha tia. E essas duas atividades também se tornavam maçantes depois de poucos minutos.
Entediada, lá ia eu ''assuntar'' a bachan. Enquanto ia descascando milho e mandioca para levarmos para casa, ela começava a contar histórias da própria infância, sempre enfatizando como queria ter concluído os estudos. Emendava com histórias da minha mãe desde pequena trabalhando na roça, e eu descobria que ambas também tinham sido crianças, e vivido coisas boas e ruins.
Daí a bachan tirava uma fornada de brevidade, servia café e limonada (de limão rosa) e quando eu via já estávamos todos no carro, a caminho de casa, o coração apertado de saudade do fogão a lenha, do chiqueiro, da lama e até mesmo dos sapos no banheiro.

Adriana Ito é jornalista da FOLHA

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