UM DEDO DE PROSA - O povo se ajuda
O cheiro de pão assando reuniu toda a família em volta do fogão de lenha. Enquanto o pai canta e toca modas de viola, a mãe passa um café. Os aromas competem na cozinha. Aquele clima gostoso de família fica ainda melhor porque é dia de chuva. ''Hoje é Deus quem trabalha na roça'', diz Chico Maravilha, o dono da casa.
O pão quente é partido e enquanto as crianças se servem, a mãe acaba de colocar as iguarias na mesa. A manteiga também é fresca, feita de nata, acabada de bater. Cada um vai enchendo sua xícara, com leite tirado de manhã, e o café passado no coador de pano. Enquanto as crianças comem, o Chico olha pela janela, mastiga em silêncio, mas acaba pensando alto.
''Quando vem a chuva, pra nós é uma coisa tão boa. Mas eu fico pensando é em que mora lá nos morros do Rio de Janeiro, naqueles que perderam tudo em Santa Catarina, e aí me lembro dos que viveram outras tragédias, como as do Chile e do Haiti. Se a gente pensa que tudo está bem por lá, porque a TV não fala mais nada, estamos nos enganando. Essa gente ainda sofre muito''.
As crianças observam o pai, um homem simples, mas que acompanha os jornais na televisão e sempre tem opinião sobre as notícias. ''As vítimas dessas catastrofes estão morando em lugares improvisados até hoje. Na hora os políticos visitam, e fazem cara de triste para as câmeras que registram sua pequena passagem pela tragédia. E depois? Pensa que as poucas doações que mandamos acabam com o problema? O povo continua sofrendo, e sofrendo pra valer'', diz o Chico, que entre as frases solta uns suspiros.
A mesa fica em silêncio. A mãe, que não quer ver a família triste, serve um bolo de fubá e vai contando a história da cunhada da vizinha. ''Ela mora lá em Salvador e com as chuvas que caíram na semana passada, perdeu tudo, mas diz que o povo acabou se ajudando e ela já se instalou novamente''.
Um dos moleques bate a mão na xícara de pingado que espirra até o fim da mesa. As meninas mais velhas socorrem o irmão, afastam a toalha, secam tudo, e servem o menino outra vez. Aí o pai termina a prosa com outra lição. ''Tá vendo? Quem vive ou já viveu a mesma situação são os primeiros a socorrer. Quem só faz cara de dó não muda nada. O povo tem que acordar, tem que ver que os políticos não são tão bons atores. A cena dessa gente dura pouco e o povo, fica como?''





