UM DEDO DE PROSA - O passarinho que não aprendeu a voar
Pensando agora, naquele dia meu irmão voltou da roça meio estranho. Ele entrou em casa segurando o embornal de um jeito que nunca fazia, segurando como se quisesse evitar que alguma coisa fugisse. Chegou rápido e foi direto para o quarto. Naquela época, minha inocência infantil ainda não havia sido contaminada pela desconfiança e a situação passou despercebida.
Só quando fui dormir, confirmei que minha percepção não havia se enganado. Assim que apaguei a lamparina, ouvi piados tão próximos que tive a certeza de que um passarinho estava no quarto. Ao perceber que eu me remexia na cama, meu irmão - que fingia dormir - chamou-me pelo nome. Antes de abrir a boca, porém, me fez jurar guardar um segredo.
Cumprido o trato, ele desancou a contar. Disse que enquanto ajudava meu pai no cafezal, um filhote de anu caiu por entre as ruas de café e começou a piar desesperado. Sem ainda ter asas para voar, o passarinhozinho se debatia no chão. Como estava longe, meu pai não viu o que se passava. Temendo que o indefeso filhote virasse o almoço de alguma serpente da área, meu irmão teria decidido, então, recolher o pobre animal e abrigá-lo dentro do embornal. ''Até procurei o ninho mas não encontrei nada'', garantiu.
Antes de fechar a marmita, meu irmão decidiu amassar uns grãozinhos de feijão e enfiar a papa no bico do filhote. E o pobre esfomiado gostou. Depois, enfiou a cabecinha embaixo da pequena asinha pelada e se aquietou. Sem saída, meu irmão argumentou que não teve outra solução senão levar o bichinho para casa.
Sabia, porém, que iria ter resistência em casa. Meu pai dizia que passarinho na gaiola não era passarinho. Era prisioneiro. Dito e feito. Como prometi segredo, meu irmão manteve o filhote de anu dentro do armário. O bicho foi crescendo e logo não teve mais como escondê-lo.
Meu pai, então, explicou a razão de seu descontentamento com a atitude tomada pelo meu irmão. O passarinho cresceu e não aprendeu a voar. Nem desenvolveu o instinto de lutar e encontrar o que comer. Era prisioneiro, mesmo vivendo fora da gaiola. Não fugia pois a prisão estava dentro dele mesmo.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA





