Meu avô, na mocidade, era caçador. Herdou o hábito tal qual uma herança de família. Da mesma forma, recebeu do pai uma das cartucheiras que levava penduradas nos ombros. Em casa, mantinha um pequeno álbum com antigos retratos em preto e branco das caçadas do pai. As fotografias mostravam o patriarca com grupos de amigos caçadores exibindo os animais abatidos e os cães perdigueiros ao lado.
No álbum de família também continha registros de festas e aniversários celebrados na casa de meu avô. E neles também apareciam cabeças de veados campeiros e peles nas paredes e outros indícios de que alí morava um caçador orgulhoso. Do lado de fora de casa, ficavam as gaiolas com pintassilgos, canários e outros pássaros cantantes da região.
Minha mãe conta que teve um dia que meu avô voltou para casa sem caça nenhuma, já a noitinha. No quintal, desamarrou quietinho os cachorros. Ela era ainda moça solteira mas diz que meu avô apareceu cabisbaixo na porta. Não levantou o semblante nem quando minha avó se dirigiu a ele.
Foi direto para o quarto com as duas espingardas - uma em cada mão. Pegou uma escada e abriu a escotilha que havia no forro de madeira. Enrolou as armas em um pano e anunciou que elas nunca mais deveriam sair dali. E continuou em silêncio por vários dias. Só resolveu falar por conta de muita insistência de minha avó. Suas explicações fizeram tudo se encaixar.
Meu avô contou que em sua última caçada, ajudado pelos perdigueiros, conseguiu encurralar uma paca em um capão de mato. Se posicionou e deu um único tiro, certeiro. O bicho caiu sobre as patas dianteiras, já sentindo os tremores da morte. Mas, num relance, se levantou novamente e procurou refúgio longe dos olhos do caçador.
Com a ajuda dos cães, meu avô esquadrinhou o lugar e acabou por reencontrar sua presa. A paca - uma fêmea - sangrava e arfava violentamente. Ao lado dela, o filhote lambia o ferimento. Ao sentir a aproximação de estranhos, o bichinho se aproximou ainda mais da mãe ferida e mirou meu avô com os olhos mais tristes que um ser vivo poderia ter. O que viu teve o impacto de um tiro certeiro no coração de meu avô.
Só então ele sentenciou à minha avó que nunca mais iria carregar e disparar as espingardas. Os tempos de caçada haviam terminado ali. Rasgou as fotos de caçadas, deu fim aos chifres e peles das paredes. Só não soltou os passarinhos porque os pobres não sobreviveriam fora do cativeiro. E revelou que o filhote órfão da paca crescia protegido no paiol do sítio.
Luciano Augusto, jornalista da FOLHA

mockup