UM DEDO DE PROSA - O médico que salvou a vida do galo
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sexta-feira, 21 de maio de 2010
Phoenix Finardi<br>Reportagem Local 
O casal de idade chegou ao médico discutindo baixinho. Na sala de espera o debate se tornou mais acalorado mas morreu assim que os dois entraram no consultório. O médico, um conhecido ortopedista, fez as perguntas de praxe. A esposa tinha dores na coluna e nas pernas. Tentando conhecer melhor a rotina dos pacientes para elaborar um diagnóstico mais preciso, o médico ficou sabendo que eles estavam casados há muitos anos e moravam no sítio. De repente, entre uma queixa e outra, a mulher desabafa:
- Eu vou matar aquele galo!
Diante do olhar surpreso do doutor, ela explicou:
- A culpa de eu estar assim é de um galo maldito que meu marido comprou. Toda vez que eu vou dar comida para as galinhas ele me ataca. Vem voando pra cima de mim, dando bicadas a torto e direito. É uma praga, um infeliz.
O marido atalhou:
- Coitado do bicho. Ele não faz por mal, não. É o instinto do animal, sabe, doutor? Defendendo as galinhas...
- Pois é, ele defende as galinhas e quem é que vai me defender? Instinto coisa nenhuma, já resolvi, amanhã passo ele na faca e ele vai pra panela.
- Que é isso, mulher? Deixa de bobagem, carne de galo é dura. E ele é um bicho tão bonito... O doutor precisava ver, garboso como ele só, um esporão que nunca vi igual, as penas coloridas, brilhantes, parece um pavão.
- Ele parece é um dragão, me atacando daquele jeito! É por isso que eu estou com essa dor nas costas, doutor. Fui saindo correndo do terreiro, escorreguei, caí, dei um tremendo mal jeito e fiquei assim.
De pé diante dos dois, o médico era o fiel da balança, tinha que tomar um partido. Com muito jeito, ele pediu que a senhora se deitasse na maca.
- Vou colocar sua coluna no lugar. E quanto ao galo, se eu fosse a senhora, não matava não.
- Não matava? Por que?
- Não. A senhora já ouviu falar da depressão galinácea?
- Como?
- Depressão galinácea, uma doença que dá nas galinhas e elas param de botar ovos. Se a senhora tirar o galo delas, elas vão ficar depressivas e daí... acabaram-se os ovos. Vai ter que acabar matando as galinhas também.
Diante do olhar desconfiado da mulher, o ortopedista fez a cara mais profissional do mundo.
Dias depois, chegou um envelope pelo correio. Dentro, a foto do galo e um bilhete: ''Parabéns doutor e obrigado por cumprir seu juramento. O senhor salvou a vida dele''.
Os ovos, o médico está esperando até hoje.
- Quem duvidar desta estória, marque uma consulta com o doutor Áureo Cinagawa e pergunte o que aquela foto de um galo está fazendo em cima da mesa dele.


