Escute só: as conversas desta semana na Venda do Nove.
- Começo de ano, seu Antonhadão, em vez de entrar aqui com o pé direito, o Mozuel me chega dando branca em todo mundo... O senhor, como dono da venda vai deixá?
Donos de venda sempre tentam contornar as coisas. Antonhadão, homem calmo, não é diferente dos outros.
- A gente tem que aturar, João Grilo. Afinal, tocar boteco de estrada é lidá com esse tipo. Mas o Mozuel é gente boa. Ele chega aí, apeia do cavalo, às vezes tem o cuidado de tirar uns tareco que pesam no lombo do bicho... Já reparou como ele cuida bem do animarzinho dele?
- Faz suas comprinhas, que é o que interessa para o senhor...
- É. Não nego. Ele dá lucro e não bole com ninguém.
- Mas tem mania de bochechar o primeiro gole de cachaça...coisa esquisita.
- É verdade, tem mania de bochechar o primeiro gole, mas a freguesia aqui é toda assim. Às vezes e pra o dente parar de doer. Alguns jogam um tantinho pro santo e com isso molham o chão. O Mozuel, pelo menos, quando começa a bocejar de sono, já pede a conta e cai fora. Mas é bom sujeito.
- Então cumé que dessa vez perdeu as estribeiras.
Bom. A esta altura já deu para ver que esse João Grilo é que é o chato de galocha. Galocha? Falei, escrevi galocha? Bom, deixa prá lá, vai.
Mas quando ele disse ''perdeu as estribeiras'', a jovem professorinha - que a tudo ouvia enquanto aguardava uma carona, sob a sombra do pé de ingá - arregalou os olhos e ficou meio que desinsofrida. Logo ela que exigia resposta dos alunos ''na ponta da língua''.
O que seria estribeira?
Resolvi ajudar. O sentido simbólico é perder a linha, xingar, etc. O sentido literal é quando o cavalo assusta, por algum motivo, corcoveia e desimbesta campo afora. O cavaleiro se atrapalha e o estribo lhe escapa do pé. Ele fica, digamos, sem chão. Na cidade também acontece isso: tem gente que vive tirando nosso estribo, para a gente cair do cavalo.
Agora pensa bem: Você acha que o Mozuel, o nosso personagem, pacato do jeito que é, ainda bocejando de sono, vai perder a estribeira. Pode até perder o estribo, sem perder a estribeira jamais.
Até sábado
H. Ramos Bezerra
A prosa de hoje foi uma homenagem à memória das vendas rurais, onde se disputavam torneios de bocha, futebol e a molecada comia muita paçoca, cocada, mortadela e tomava tubaína Funada.

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