UM DEDO DE PROSA - O casamento de Tiana
Sebastiana, ou simplesmente Tiana, como todos a chamavam no vilarejo de Cruz dos Milagres, tinha todos os adjetivos necessários para ser considerada moça ''casadoura''. Morena formosa, era cozinheira de mão cheia, fazia um arroz carreteiro que deixava qualquer homem lambendo os beiços. Filha de Pedro e Marta, casal dos mais respeitados do lugar, sempre ajudara os pais na roça; educada, caligrafia bonita, frequentadora semanal das missas de padre Bento e da novena na casa de dona Maroca.
A mais velha de sete filhos - cinco moças e três rapazes - já tinha seis sobrinhos filhos de três de suas irmãs já casadas. Era fato, havia ficado para titia. Ninguém conseguia entender o porquê. Pretendentes não faltavam, eram contados aos pares em toda a redondeza.
No coração, Tiana guardava seu segredo. A paixão que mais havia lhe tocado até então, por Antônio, do sítio vizinho, rapaz da mesma idade, era também a que lhe causara uma grande dor. Já havia 10 anos, mas ela não esquecia. Viu muito bem quando ele, naquela quermesse de Santo Antônio, atrás da igreja, beijou, no rosto, a oferecida da Helena. Ah! ele não podia ter feito aquilo. Justo no dia de Santo Antônio, que também era aniversário de Tiana.
Terminou o namoro e nunca mais deu chance a nenhum outro pretendente. Achava que nenhum homem prestava. Todos iguais, mentirosos e assanhados.
Como Tiana nunca explicou o motivo do rompimento a Antônio, ele também nunca pode lhe dizer que beijara sim Helena, mas o ato de carinho não passava de um agradecimento pelo fato de a ''outra'' ter-lhe emprestado uns livros de poesias que seriam úteis para escrever uma carta bem bonita para a amada.
Faltava uma semana para mais uma quermesse de Santo Antônio, a mais bonita e grandiosa de todas que aconteciam em Cruz dos Milagres. No mesmo dia ela completaria 30 anos. Estava na hora de dar uma chance a alguém. Alguns gaiatos já cantavam perto dela a música que fez sucesso na voz do Sérgio Reis, dizendo que ''panela velha é que faz comida boa'' só para tirar sarro.
A moça propôs um desafio. Daria uma chance para o homem que atravesasse, descalço, a pista de brasas da quermesse. A notícia se espalhou. Quem fez a pista foi Pedro, o pai da moça, que no fundo não queria que a filha casasse. Caprichou. Dez metros de brasas da melhor lenha do sítio. Ardiam.
Tiana fez sua parte. Pendurou Santo Antônio de cabeça para baixo, e rezou. Que o aprovado fosse o melhor. Apareceram 12 candidatos. Até o 11º nenhum passou do quinto metro. Chegou a vez do 12º, Antônio, que havia ficado a semana toda andando descalço nos piores terrenos, até criar casca grossa no pé. Queimou um pouco a sola, mas passou.
A mulher engoliu o orgulho e tascou no amado um beijo na boca daqueles bem dados ali mesmo, na frente de todos. Quem quisesse falar mal que falasse. E correu despendurar o santo. O aprovado foi justamente o que ela queria.
H. Ramos Bezerra





