UM DEDO DE PROSA - O casamento
O céu azul e a luz terna e morna do sol da manhã faziam brilhar ainda mais a folhagem verde oliva do abacateiro em frente à porta da sala. A casa estava cheia de gente. Até os bichos no curral pareciam anunciar uma boa nova. O burburinho na cozinha não deixava dúvida de que a data era de festa. Era dia de casamento.
A mãe andava para lá e para cá, atordoada com cada coisa fora do lugar. Ajeitava a toalha da mesa, vigiava o forno a lenha onde ardiam generosos assados, batia mais uma massa de bolo, engomava outra vez as roupas dos meninos, escovava os cabelos das meninas. O pai tinha ido à venda comprar a bebida: cachaça, vinho, cerveja e guaraná. Sem geladeira, o velho tanque servia de reservatório.
Do lado de fora, sentado na varanda, o avô soltava baforadas ritmadas do cigarro de palha. Com a outra mão, coçava o perdigueiro parado ao lado. No quintal, as mesas e cadeiras começavam a ser arrumadas. Arranjos simples com folhas de alecrim e flores de laranjeira salpicavam as toras implantadas provisoriamente e que juntam formavam uma espécie de arco que deveria envolver os convidados. Uma mesa grande também já estava sendo colocada para abrigar a comida, talheres, copos e o que o mais precisasse.
No quarto, ele acordou e viu o terno pendurado na porta do guarda-roupa. Recordou de quando era menino e de como eram boas as festas de casamento. Também se lembrou do primeiro bilhetinho trocado na quermesse, do primeiro 'eu te amo' sussurrado ao pé do ouvido, do primeiro beijo.
Colocou-se de pé, tomou um banho e se aprontou. Junto com a família, tomou rumo até a capelinha do bairro, que estava toda enfeitada com fitas e flores da estação. O padre já esperava. Do altar, olhou quando as portas se abriram e, no contra-luz, viu surgir a rosa mais linda. Um véu fino cobria singelamente o seu rosto sem, no entanto, esconder os finos traços de princesa. Esperou que ela se aproximasse e deu-lhe um beijo na testa. Depois, os dois caminharam juntos até chegarem ao pároco e se ajoelharem.
Seguraram firme um na mão do outro e repetiram com sinceridade que queriam ser felizes até o fim dos dias. Repetiram em silêncio, o verso de Cora Coralina que um dia aprenderam juntos na escola. 'O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher.'
Luciano Augusto, jornalista da Folha de Londrina





