UM DEDO DE PROSA - O cafeeiro
Coisa mais gostosa e divertida era participar de todo o processo de produção, colheita e preparo do café. Éramos - eu e os primos - ainda muito pequenos quando começamos a entender que aquela arvorezinha, que uma vez por ano ficava carregada de bolinhas vermelhas, era mais do que apenas uma arvorezinha. Enquanto a vó colhia os grãos, já bem no ponto, ficávamos esparramados pela terra brincando ou recolhendo 'as bolinhas' vermelhas que por ventura escapassem das suas mãos habilidosas.
Depois, durante dias a fio, convivíamos com os grãos esparramados pelo terreiro, secando sob o sol. Vez ou outra, a vó aparecia para checar como andava a secagem. E, com o tempo, percebemos que estavam prontos para serem descascados quando ficavam da cor 'de burro quando foge'.
Bom mesmo era o processo de torragem porque sabíamos que em seguida poderíamos brincar de moer o café. Era uma briga, fazíamos fila para virar e virar a 'manivela' do moedor. Quase uma mágica ver o grão marronzinho sair em pó. E daí, que depois a vó preparava o café e fazia pão em formato de passarinho para a gente. E vivíamos tardes tão despreocupadas ao redor da barra de sua saia. Sei lá se por isso café é a minha bebida preferida. Meu momento diário de despreocupação. Tão fundamental, que hoje, anos depois, se fechar os olhos consigo me lembrar sem nenhuma dificuldade do cheiro marcante da bebida passando pelo coador de pano.
Ah, tá. Não, eu não nasci no meio rural. Do hospital em que vim ao mundo fui direto para a casa onde já tinha água encanada e asfalto correndo em frente. O pé de café ficava no jardim da frente da casa e era de lá que tirávamos o estoque para o ano inteiro. O pé era bastante frutífero e nos abastecia. O terreiro onde os grãos secavam era a varanda e o torrador uma panela simples e enferrujada.
Na casa, no quintal dos fundos, ainda tínhamos um pé de goiaba e outro de ameixa (a amarelinha), tão difícil de ser encontrada - como são difíceis de se encontrar árvores frutíferas plantadas nos quintais urbanos de hoje em dia. E a gente subia e descia das árvores e éramos tão felizes.
O pé de café precisou ser cortado, ficou velho. Assim como foram cortadas a ameixeira e a goiabeira. Os pés de fruta deram lugar à lavanderia, já o jardim da frente, seguindo o ditado de que 'em terra boa se plantando tudo dá', hoje é ocupado por rosas e um pé de mexerica que na época devida fica amarelinho, carregado de frutos, e vira a atração da rua. Mas essa, é outra história...
Erika Zanon é jornalista na Folha de Londrina





