UM DEDO DE PROSA - O bolo de macaxeira
Molecote ainda, seo Dézinho deixou o sertão pernambucano de pau de arara no comecinho dos anos 60. Na infância viveu tempos difíceis, que ajudaram a criar nele uma couraça dura como as vestimentas de couro dos sertanejos de sua terra natal. Mais velho entre 14 irmãos, partiu sozinho para tentar a vida em São Paulo. Não sem antes aprender com o pai a não cair em conversa de malandro. Regra de ouro para sobreviver no mundo hostil da cidade grande.
Alpercatas nos pés, trouxa nas costas e chapéu de couro na cabeça, chegou à metrópole sem um ''gato para puxar pelo rabo'', como dizia sempre. Foi pedreiro, pipoqueiro, porteiro, novamente pedreiro, metalúrgico. Casou-se, foi pai de dois filhos. Enviuvou.
Decidiu que voltaria a lidar com a terra. Queria de volta o conforto do sol lhe queimando a moleira, como na infância. Juntou as poucas economias e comprou uma chacarazinha modesta num vilarejo do norte paranaense. Passava os dias cuidando de um punhado de galinhas, porcos e coelhos, de um pequeno pomar e dos pés de macaxeira que lhe marejavam os olhos. A planta fazia Dézinho recordar sua terra natal.
O sofrimento de nascer e crescer na seca nordestina fez dele um homem aparentemente espinhoso como o mandacaru. De perto, porém, era agradável e generoso. Gostava de ajudar a vizinhança. E falava muito, sempre com o sotaque de nordestino legítimo. Já passado dos 60 anos, tinha os cabelos brancos, a face vincada e a coluna meio arcada. Mas era ainda forte.
A única coisa que lhe trazia tristeza era a saudade de sua terra. Da chuva que renascia a caatinga. Dos parentes que resistiram à mudança. Guardava cada centavo para poder reencontrar o sertão antes da morte. Certo janeiro, comprou a passagem e partiu para Pernambuco, mas com uma grande preocupação: como ficariam seus pés de mandioca, já quase na época de serem arrancados do solo? A solução foi deixar um recado em carvão numa tábua na entrada da chácara: ''o véio foi embora mas a macaxeira tem dono''.
Após dois meses, retornou do Nordeste recarregado. Mas o pior já havia acontecido: a plantação de mandioca sumira do quintal. Dézinho não se fez de rogado. Foi assuntar no armazém e deu de cara com o novo vizinho, que havia se mudado poucos dias após o ''véio'' ter saído em viagem. Sem dizer quem era, puxou conversa. Ingênuo, o novo vizinho o convidou para um café. Já ao entrar na casa, Dézinho confirmou suas suspeitas: o perfume do bolo que acabara de sair do forno denunciou o autor do furto. Sem apontar o dedo, o nordestino tomou a xícara de café numa mão e na outra pegou o maior pedaço do doce colocado sobre a mesa. E disparou: ''olha que tinha ficado arretado com o sumiço da macaxeira. Mas está tão bom que não vou nem cobrar as ramas que o senhor pegou da minha roça''. Envergonhado, o vizinho foi até a dispensa e lhe deu de volta os pés arrancados sem permissão.
H. Ramos Bezerra





