Na roça, embora durma para fora para vigiar o quintal, cachorro é praticamente um membro familiar. Assim era lá em casa. Os cães ficavam do lado de fora, mas durante o dia tinham livre acesso aos moradores. Nunca eram mantidos presos. E quando morriam, era uma tristeza só. Parecia que os dias nem tinham mais a mesma cor. A saudade deles é coisa que até hoje gera nostalgia em casa.
Os cães viviam soltos para circularem por onde quisessem. Às vezes sumiam por horas e voltavam sujos até as orelhas. Uns regressavam com o rabo entre as pernas, cheios de espinhos de algum porco-espinho fincados na boca e no nariz. Meu pai, então, tinha que se dedicar aos primeiros socorros: sentava num toco, prendia a cabeça do cachorro entre as pernas, pegava um alicate, um paninho com álcool para desinfectar o local e começava a delicada operação de tirar uma a uma as pequenas lanças espetadas na cara dos bichos. Depois da estrepolia, eles seguiam cabisbaixos para seu cantinho e ficavam lá amargando uma dor danada e sem poder comer direito.
Esses eram os problemas típicos dos cães da região até que certo dia, melhoraram a estrada de terra que passava perto do sítio. A partir daí, o sossego da cachorrada terminou. Caminhão, carro, moto, trator... eram máquinas que até então os cachorros da redondeza raramenta viam. Quando isso acontecia, saíam feito loucos correndo atrás daquele monstro barulhento e que corria muito mais rápido que eles.
O Saci era um desses cães. Ele viveu com a gente quase uns 12 anos. Era um pastor alemão capa preta, cheio de personalidade, mas com um carinho com a gente que só ele tinha. Levava ao extremo a tarefa de cuidar da família e quando era para brincar também não perdia tempo. Adorava nadar no rio com a molecada. Tratava meu pai como extensão de si mesmo. Quando meu pai se sentava na área de casa, logo vinha ele balançando o rabo. Deitava sobre o pé de papai e ficava assim por horas.
Mas num belo domingo ensolarado, logo após o almoço, Saci ouviu aquele estrondo se aproximando. Eriçou os pelos das costas, alinhou o rabo, direcionou as orelhas e partiu em disparada. Sua empreitada, no entanto, foi trágica. Ao se aproximar do carro - um Fusca azul recém-comprado por um vizinho de sítio -, Saci foi atingido pelo para-choque dianteiro e acabou sendo atropelado mortalmente.
Meu pai viu a cena e correu para tentar fazer alguma coisa. Agachou-se sobre o cachorro e logo percebeu que não havia esperança. Como último ato, meu pai foi até o quintal, abriu uma cova e sepultou o amigo. Naqueles dias, papai não comeu e pouco falou, entristecido pela morte do companheiro.
Luciano Augusto, jornalista da FOLHA DE LONDRINA

mockup