De tudo que já ouvi falar sobre a seca, uma me incomodou demais da conta. Foi quando um daqueles apresentadores, as figurinhas da TV (alguns capricham tanto nos trejeitos que parecem desenhos, ora animados ora inanimados) fez um comentário ao final da reportagem sobre queimadas. E que comentário mais tonto! Disse mais ou menos o seguinte: ''Ainda bem que a maior parte da área queimada era de pasto seco''.
Saibam vocês, meus amigos ''urbanóides'', que capim ou grama secos não foram feitos para arder em labaredas. E que essa história de que após a queimada o pasto brota mais viçoso é pura mentira. O fogo destrói tudo. Debaixo de capim seco ou de grama seca, há uma microfauna, muitos chamam de vida microbiana. Sob folhas ou pequenos torrões há bichinhos que formam um ambiente necessário para a vida. O solo são essas vidas. O solo, a terra, não apresentam combustão, mas sofrem tanto com a alta temperatura do fogo que ficam estéreis. Vidas são minúsculos animais ou vegetais. Se preferir chame de matéria orgânica. É na matéria orgânica (camada superficial da terra) que as plantas encontram os micros e macros elementos para se alimentar, crescer e dar frutos. O fogo também acaba com a umidade, tão necessária. Cinza não tem fertilidade. Nada brota das cinzas, nem o amor, a não ser na poesia do cancioneiro sonhador.
Aprenda mais essa, meu engravatado urbanóide, que considero um puxão de orelhas nos órgãos oficiais e nos políticos: Sabe por quê os rios secam? Porque os mananciais, as nascentes, foram maltratados o tempo todo. E esses maus tratos ocorreram por falta de cuidado do homem do campo. Eles são culpados. Mas tem um porém: receberam pouca ou nenhuma orientação. Da mesma forma que não foram orientados a manter matas ciliares. O campo está despido; a terra está nua. Sem proteção ficaram todos iguais àquelas plantinhas frágeis: diante de qualquer vento, murcham e morrem. Ninguém cuidou de nada. Só quiseram explorar esse Paraná de terra fértil...e teimosa porque insiste em produzir. Agora é a seca que destrói. Amanhã pode ser o excesso de chuvas que causa estrago. Mas é porque nós estamos deixando a natureza doente, fragilizada.
H. Ramos Bezerra
A prosa de hoje é inspirada no inconformismo pela falta de cuidados com a natureza - rural ou urbana.

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