UM DEDO DE PROSA - Não se olham os dentes!
A cavalo dado não se olham os dentes. Como assim? O uso da linguagem figurada, ou figuração de linguagem, resiste a séculos. Em outros tempos - quando o cavalo era um dos principais meios de transporte -, o animal era mais valorizado e estimado; era alvo de negócios. Segundo o pesquisador/historiador Márcio Cotrim, uma das formas de calcular a idade do animal era prestar a ateção na arcada dentária. Seus primeiros dentes permanentes não apareciam até completar três anos de vida, boa dica para perceber a idade do potro. Portanto, não adiantava o dono esconder a idade dele - do cavalo. A expressão, hoje em desuso, é aplicada para transmitir uma mensagem às pessoas que recebem presentes. Não se olham detalhes, nem cor nem nada. É presente! Foi dado com gosto! E ainda é algo que veio de graça. Pois então agradeça e curta.
Agora a origem da frase. Quem deu carona ao significado figurativo foi um hábito real. As pessoas valorizavam esse grande aliado do homem, esse amigão que é o cavalo (ou a égua, ou jumento, ou burro ou a mulha - equinos e azininos).
E hoje, hein? Quanta diferença. Hoje o que fazem com o pobre animal de serviços é pura covardia. Covardia! O homem urbano também usa a tração animal para o transporte. Exemplo são os catadores de papel (os recicladores). Ninguém os orienta sobre o manejo. Então eles acham que para o animal andar rápido é preciso bater. E como batem! O que se vê por aí são animais magros, famintos, andando sob açoite. E quando perdem a força (em geral o envelhecimento ocorre muito cedo) acabam levados para o frigorífico a preço de babana. Universidades, entidades veterinárias, ninguém se importa com nada. Veterinários não se incomodam. Quem tem denúncia a fazer deve procurar a Associação de Proteção aos ainimais. Porque ninguém mais quer saber. Vez ou outra a limpeza pública recolhe os restos mortais de um, que estava fedendo num fundo de vale qualquer. Cavalos que levam uma vida de cão.
H.Ramos Bezerra
A prosa de hoje foi inspirada na revolta causada pela falta de amor aos animais quando se fala tanto em ecologia, ambiente, etc.





