UM DEDO DE PROSA - Maçãs de algodão
O ocorrido se deu em pleno dia de colheita do algodão. É nessa época que as buchas abrem de maduras e o verde da plantação fica tomado pelo branco sujo de galhos e folhas. Era lá no meio que estavam o jovem Quéquinha e seo Domingos Imbaúva. Numa daquelas típicas cenas entre pai e filho, enquanto o mais velho contava as histórias movimentando o braço em direção ao horizonte dizendo que tudo aquilo ali havia sido da sua família. A criança, calada, só escutava.
Um dia, veio aqui um homem de roupa de linho e fez um negócio seu avô, o coronel Imbaúva. Sei lá que diabos ele fez com o dinheiro, se recebeu ou não. Sei que eu, minha mãe e mais meus irmãos ficamos só com aquele sítio onde a gente mora.
Nossa pai, era pra gente ser dono de tudo isso aqui?
Pois é, vê meu filhote como é a vida...
Ao fundo uma voz de homem bronqueava com a dupla que enrolava o serviço na roça: Vâmo seo Domingos, num é pra ficá proseando mais seu moleque não.
Num sopetão Domingos e Quéquinha saíram roça afora enfiando os dedos entre as bordas das maçãs de algodão (nome dado ao fruto maduro do algodoeiro). Mas o velho Domingos bom de prosa emendou com o Ribas, o administrador da fazenda Esperança, aonde trabalha desde quando era criança. Antes até do senhor nascer eu já andava por essas ruas, retrucou demarcando terreno, mas sem querer ofender como o mesmo disse em seguida.
A verdade é que os dois já tinham trabalhado bastante durante o dia. Chegaram lá pelas seis da manhã na roça. O velho Domingos que não era bobo, gostava de chegar cedo para pegar as buchas de algodão ainda levemente encharcadas com o orvalho da madrugada. Esperto, elas davam mais peso ao fardo na hora da pesagem no final do dia. Como o peão do algodão ganha por arroba colhida, quanto mais conseguir apanhar maior será o valor ganho na diária. Já sentado à sombra, pitando seu cigarro de palha das seis da tarde, faz as contas com seu filho.
Hoje meus fardos vão dar umas 100 arrobas, pra mais... Se cada um pesa quase oito arrobas e ali uns doze sacos, e eu tenho ali perto disso. E você Quéquinha, já sabe contar quanto colheu?
Ah, pai. Eu colhi junto com o senhor. Fui colocando aí no meio...
Quá...quá...quá... - gargalhou o velho Domingos - Mas um homem deve ter seu próprio fardo, meu filho. Tem que garantir o seu. Você tem que saber o quanto você tem que ganhar, para todo dia tentar atingir a sua quantia. Isso vai ser importante na hora de criar sua família Quéquinha. Um homem adulto tem compromissos para honrar...
Ah, pai intercedeu Posso falar a verdade para o senhor? Já que tem que ser assim, e não pode ser de outro jeito, eu estou achando muito chato esse negócio de um dia virar adulto.
Renato Oliveira
* A conversa de hoje foi inspirada na tradição oral do campo que se perpassa de pai para filho.





