Foi realmente um privilégio ter minha avó materna e tios morando na área rural durante a minha infância. Eu e a minha prima, também de Londrina, não víamos a hora de embarcar no ônibus pinga-pinga empoeirado que nos levava rumo às deliciosas aventuras durante as férias.
Minha avó sempre vinha nos buscar e íamos felizes, na expectativa de encontrar as outras seis primas que moravam no sítio. Um bando de meninas que tagarelava a noite inteira quando a televisão ainda não imperava.
A minha tia, ainda viva, fazia uma comida simples e saborosa. Arroz, feijão, farinha de milho em flocos, salada de cebola e pimenta de cheiro era o nosso banquete preferido - ainda de dar água na boca. O pedido era sempre o mesmo, assim como o bolinho de chuva ou de polvilho, que não podiam faltar. Outro detalhe que ficou na minha memória era a manteiga de garrafa feita de nata batida. Haja paciência para ela finalmente dar o ponto.
Na hora do banho, a lata suspensa com água quente causava uma certa estranheza, mas em pouco tempo ficávamos craques em lavar tudo com apenas uma medida de água e rapidamente, para que não desse tempo da água esfriar.
À noite, chegávamos a nos acomodar até em três primas numa cama de casal e não sei por qual motivo tínhamos ataques de riso toda vez e enquanto o meu tio não desse uma bronca daquelas a risadeira não parava. E a gente rezava para não dar vontade de fazer xixi no meio da noite, pois se isso acontecesse teríamos que apelar para o velho penico (vai que tem um bicho escondido ali, pensávamos) e a lamparina de querosene. Uma função.
No período do dia, passeávamos pelo sítio atrás das frutas maduras, nos espantávamos com algumas manifestações da natureza, como o cruzamento dos animais, e corríamos tanto nos carreadores que chegávamos a cair. Com a roupa suja de terra, às vezes acontecia da diversão ser tanta que não conseguíamos segurar a vontade de fazer xixi e aí a bagunça era geral.
Hoje esse tempo já passou. Minhas primas estão todas casadas, o meu tio e a minha avó já se foram, agora tem computador, celular, chuveiro elétrico e micro-ondas no sítio..., mas de alguma forma a história se reinventa. Quem agora se encanta com o sítio é a minha filha, de 3 anos, pois lá ainda tem bois, cavalos, passarinhos, galinhas e uma ''charretinha de boi'' (na verdade, um carro de boi), construído pelo Tio Zé, marido da minha prima caçula, que é a sua paixão. Que bom que a vida continua.
Ana Paula Nascimento é jornalista na FOLHA

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