UM DEDO DE PROSA - Férias escolares
Lá fora, o frio era de bater os dentes e fazia doer até os ossos. A neblina encobria a baixada perto de casa e escondia os raios de sol que começavam a tentar dar as caras. A temperatura, abaixo de zero, congelava até a água do laguinho que ficava no caminho. Até os patos não arriscavam molhar as frágeis patinhas. Ainda bem que logo nos primeiros dias de julho, época em que o frio mais nos castigava, tinha início as férias escolares.
Lembro que enquanto havia aula, ninguém saía de casa antes de colocar muita roupa. Logo que a gente acordava, minha mãe já tinha separado as peças. Ia colocando uma sobre a outra e ficávamos até mais gordinhos após as três, quatro blusas de lã. O calçado também era bem fechado e uma meia grossa protegia os pés. Na cabeça, um gorro deixava as orelhas bem quentinhas também. O par de luvas completava a armadura para suportar os rigorosos invernos.
Por isso tudo, a alegria tomava conta de mim e dos meus irmãos nos últimos dias antes das férias. Eu era um bom aluno, mas tinha que frequentar as aulas até o último dia letivo, mesmo com as tarefas todas concluídas e as notas semestrais já fechadas. Minha mãe dizia que estudante não tinha obrigação só com o boletim. ''Se a merendeira vai, a professora vai, a diretora vai, porque você não pode ir?'', questionava.
Era assim até o último dia letivo de julho. Normalmente, nestas datas, a direção da escola - que reunia crianças de vários bairros rurais vizinhos - fazia uma confraternização depois do intervalo. Antes de tocar o sinal do recreio, era um suplício. Era difícil ficar na cadeira, prestar atenção à revisão da professora, acertar a conta de matemática ou se onça era exemplo de mamífero ou réptil.
O soar da sineta parecia demorar uma eternidade mas quando a gente ouvia os primeiros ruídos era uma algazarra sem tamanho. Até a porta, a turma seguia com certa paciência, mas do corredor para fora os meninos se acotovelavam e gritavam feito doidos. Até as meninas, sempre muito comportadas, também faziam sua festa com pouco menos de barulho.
A gente se fartava de comer: canjica, pamonha, bolo de fubá, amendoim torrado, biscoito de polvilho, suco de fruta. Alguns dos meninos sempre levavam uma bola escondida e, mesmo com a pança cheia, todos iam para o campinho.
Para a gente já era férias e a brincadeira seguia até a hora do almoço. Ou melhor, não terminava mais até que chegasse agosto e as aulas começassem de novo.
Luciano Augusto, jornalista na FOLHA DE LONDRINA





