Lobisomem fora de época


Conversar com mineiro, gente muita versada em assombração e fantasmas, é difícil não encontrar um que já não tenha visto ou pelo menos ouvido alguma história de lobisomem - este ser encantado que vagueava pelas estradas de antigamente assustando as pessoas até encontrar quem o ferisse para, assim, segundo a lenda, interromper o seu fadário e quebrar o encanto.

Mineira de Santa Rita do Passa Quatro, Guiomar nunca se esqueceu da noite em que um raivoso lobisomem invadiu a sua casa. ''Era Sexta-feira Santa, meu pai deu uma chicotada que cortou o pescoço do bicho e ele fugiu. No dia seguinte, meu pai viu o vizinho nosso com o pescoço cortado bem no lugar que ele deu a chicotada, era ele o lobisomem'', dizia Guiomar, acrescentando que ''o pai não foi falar com ele, não, a gente tratou foi de mudar dali.''

Terra de muito mineiro, Londrina registra, pelo menos, duas histórias envolvendo o aparecimento de lobisomem. Verdade? Mentira? Isso não importa em assuntos dessa natureza. Contrariando a maioria dos depoimentos afins, que fala em noite de lua cheia, o lobisomem que Izolina diz ter visto apareceu numa noite de tempestade, às margens do rio Cafezal, lá para os lados da Aviação Velha, nos idos de 1943. Num raio mais forte, Izolina viu o bicho que ela descrevia assim: ''Era cinza, peludo e tinha as patas traseiras maiores que as dianteiras.''

Mais de 40 depois, no final dos anos de 1980, num mês de agosto, uma notícia apavorou os moradores do jardim Tóquio, zona Oeste da cidade: um lobisomem apareceu por lá e, pra confirmar a macabra presença, já tinha comido um cachorro, uma bunda de cavalo e, de quebra, destroncado o pescoço de dois gatos.

Quem chegou a ver o bicho, porém, dizia que ele não tinha nada de lobisomem. ''Tinha orelha pequena de gato, corria com o rabo entre as pernas e, mais um menos, 1 metro e 20 centímetros de comprimento. Para mim é bicho que tem parentesco com onça, tem a cor escura, do tipo de uma pantera, de lobo não tem nada. Mas que tem esse bicho aí, tem!'', assegurava Aurora, moradora do Jardim Tóquio

''Olha, mãe, olha mãe, vem ver que bicho feio está subindo lá do outro lado do rio!'' Maria Tereza olhou para onde a filha apontava e viu: ''Era um bicho bem grande, peludo e tinha um rabo bem comprido, era parecido com uma onça, mas era escuro'', contou, na época, Maria Tereza sem esconder que estava ''morrendo de medo''.

O suposto lobisomem avistado às margens do córrego Rubi foi desmascarado quando Aparecido lembrou aos moradores do bairro que isso era impossível já que ''lobisomem gosta mesmo é de comer fezes de galinha e, vez ou outra, arranca as tripas de um porquinho''. E arrematou com um argumento definitivo: ''Além do mais, é fora de época, estamos em agosto, não é tempo de lobisomem, é na quaresma que ele aparece.'' Como a quaresma acabou e não se teve notícia do aparecimento do bicho, só resta desejar uma Aleluia e uma Páscoa festiva para todos e ponto final.

Apolo Theodoro

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